Ao bloquear comentários no Instagram, Davi Alcolumbre, como presidente do Senado, transforma vaidade ferida em método de governo e expõe ainda mais o que sempre soubemos sobre líderes políticos: temem o próprio povo
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, passou da ameaça velada à confissão explícita: depois de intimidar os brasileiros que usam a hashtag “congresso inimigo do povo”, decidiu trancar os comentários do seu perfil no Instagram. A cena é quase uma metáfora pedagógica sobre o poder no Brasil: um líder que deveria ampliar canais de escuta escolhe fechá-los; alguém que deveria lidar com discordância pública prefere silenciá-la. A reação é reveladora. A política, afinal, não é feita apenas de leis, mas de pulsões, medos e vaidades. E Alcolumbre deixou que todas elas falassem mais alto do que seu cargo.
O gesto de fechar comentários diz muito sobre como as elites reagem ao desgaste simbólico. Instituições maduras não se abalam com críticas, mesmo as mais ácidas. Democracias fortes não temem hashtags; acomodam tensões, acolhem divergências, aceitam fricção. Quando um presidente do Senado fecha suas redes sociais, não está apenas protegendo a imagem, está produzindo um diagnóstico: a distância entre representantes e representados se ampliou a ponto da porta ter fechado. É o tipo de movimento que, para a teoria democrática, acende um alerta vermelho: líderes que não toleram crítica pública, normalmente, também não toleram ser contrariados.
Ao bloquear comentários, Alcolumbre faz um gesto típico de quem sente o narcisismo arranhado. O afeto central não é medo, é vaidade. O que o fere não é a hashtag, mas o espelho: a percepção de que o povo, supostamente representado, está nomeando o Congresso como inimigo do povo. Quando a crítica ameaça o self, o sujeito não responde politicamente, responde defensivamente. É o tipo de mecanismo que Freud chamaria de retração narcísica: ao invés de elaborar o conflito, o indivíduo tenta apagar o estímulo externo. Só que, na política, apagar nunca apaga, amplifica.
Há também uma leitura institucional a ser feita. Quando o presidente do Senado fecha comentários, ele não fecha apenas os seus, fecha simbolicamente os comentários do país inteiro. A mensagem implícita é: “Eu não quero ouvir vocês.” E isso diz muito sobre o momento político brasileiro. Um Senado que se irrita porque o povo está irritado, que se ofende porque o povo está ofendido, que investiga hashtags e bloqueia comentários, não é um Senado forte; é um Senado fragilizado, inseguro, mais preocupado com ressentimento do que com representação. O que deveria ser gesto de autoridade vira sintoma de fraqueza institucional.
A ironia é quase inevitável: ao trancar os comentários, Alcolumbre só confirmou o que milhares já gritavam: que o “congresso inimigo do povo” incomoda porque toca na ferida real, aquela que nenhum bloqueio digital consegue esconder. O poder, quando teme o próprio povo, perde a legitimidade antes mesmo de perder o mandato. E líderes que preferem o silêncio à escuta talvez precisem lembrar o básico do sistema democrático: governar é, antes de tudo, sustentar a coragem de ouvir. Quando falta essa coragem, sobram hashtags e faltam presidentes capacitados para ocupar a cadeira, como deveria ser, de fato, ocupado. A postura do presidente do Senado é um verdadeiro papelão, além de covarde.
