Anatomia do poder abandona o plenário e ensaia seus decretos em suítes climatizadas a base do lobby pornográfico
Existe um tipo muito particular de articulação institucional que dispensa gabinete, mas exige lista VIP. Não passa pelo Diário Oficial, passa pelo DJ. Não deixa ata, deixa ressaca. O enredo é conhecido: banqueiros generosos, autoridades animadas, garotas de programa compondo o cenário e decisões públicas flertando perigosamente com interesses privados. Tudo embalado como “vida social”, essa categoria mágica capaz de absolver qualquer promiscuidade desde que servida em cristal.
O escândalo não reside na luxúria; adultos fazem o que querem com seus desejos. O problema começa no ponto exato em que o prazer vira moeda e o corpo, instrumento de convencimento político. Aí arrombando o Brasil sem camisinha. O lobby deixa de circular em planilhas e passa a circular em suítes. A persuasão abandona argumentos técnicos e investe em estímulos mais primários. O país, reduzido a figurante, assiste à própria pauta ser redigida entre risadas abafadas e portas trancadas.
É podre e, ao mesmo tempo, triste, ver uma elite que precisa erotizar o poder confessando, sem perceber, a fragilidade do próprio poder. Quem confia na força dos seus fundamentos não precisa seduzir instituições como se seduz clientes. A compulsão por misturar decisão pública e excitação privada revela menos virilidade política e mais dependência sistêmica. No fundo, não é sobre desejo: é sobre domínio. E nada denuncia mais insegurança do que transformar influência em espetáculo íntimo.
O Brasil não precisa de puritanismo, precisa de decência republicana. A compra de decisões à base de champanhe e PUTARIA não é transgressão charmosa; é degradação administrativa com reflexo em todo país. O nome pode variar, foda-se: confraternização, networking, reunião, mas o roteiro é velho: quem paga a festa tenta pautar o país. Resta saber até quando o contribuinte aceitará financiar, sem saber, essa versão tropical do “lobby da pornografia”, onde o Estado vira figurante e a sacanagem termina sempre no quarto ao lado.
