O time da impunidade: futebol reúne craques do crime

O futebol que flerta com o crime joga pela naturalização do inaceitável nas arquibancadas

O episódio envolvendo a partida entre Vasco da Gama (AC) e Velo Clube (SP), válida pela Copa do Brasil, escancara um problema que o futebol brasileiro insiste em tratar como acidente isolado. A volta do goleiro Bruno Fernandes ao cenário nacional, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio, somada à exibição pública de camisas em apoio a atletas investigados por estupro, não é ruído: é intenção. Não se trata de exagero retórico perguntar se estamos diante de um clube esportivo ou de uma instituição que normaliza o flerte com a barbárie e pretende formar uma organização criminosa em vez de um time de futebol.

O futebol sempre foi apresentado como espaço de paixão, pertencimento e identidade coletiva. Mas quando jogadores sob acusação grave são transformados em símbolos de solidariedade interna, o que se comunica é outra coisa: corporativismo acima da ética. Defender a presunção de inocência é princípio jurídico; transformá-la em espetáculo de apoio é escolha política de invalidar o discurso da vítima. O campo deixa de ser palco esportivo e passa a operar como arena de blindagem moral.

Mais perturbador que os fatos é a resposta. Ao posar com camisas de atletas acusados de estupro, a equipe envia uma mensagem clara: o pertencimento ao grupo se sobrepõe à gravidade da acusação. Isso não é neutralidade; é posicionamento. E posicionamento que relativiza violência contra mulheres não pode ser tratado como simples “apoio ao companheiro”. Trata-se de um gesto que comunica valores , e valores têm consequências sociais.

E quanto à torcida? Não se trata de demonizar indivíduos, mas de interrogar a cultura que sustenta esse espetáculo. Que tipo de identificação é construída quando o escudo do clube convive com narrativas de homicídio e estupro? O torcedor apaixonado não é cúmplice automático, mas também não é sujeito neutro diante dos valores do time que abraça. O futebol brasileiro precisa decidir se quer ser espaço de catarse coletiva ou trincheira de normalização do inaceitável. Nesse caso, na minha opinião, o jogo já foi perdido antes do apito inicial.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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