O pai que grita “vagabundo” para defender o filho preso por ESTUPRO

A autoridade moral de um pai desmorona em público enquanto a sociedade inteira enxerga a origem da violência cometida. Filho de peixe, peixinho é…

Impossível não refletirmos sobre o episódio em que o advogado da adolescente vítima de estupro coletivo prova por documentos ter sido chamado de “vagabundo” pelo pai de um dos acusados. Não se trata apenas de um destempero verbal ou de uma reação emocional diante da prisão de um filho. O que se expõe ali é um padrão de comportamento: o da autoridade que, em vez de reconhecer a gravidade de um crime brutal e a dor de uma vítima, escolhe atacar quem busca justiça. Xingar quem representa a vítima. Quando um homem que ocupou função pública na secretaria estadual de Direitos Humanos reage assim, duas coisas ficam evidentes: primeiro, a razão em expulsá-lo do cargo. O segundo, ainda mais grave, expõe um pai que carrega uma hierarquia moral torta dentro de si.

A figura paterna é representação da lei na vida de uma criança. É o pai, ou quem ocupa esse lugar, que introduz limites, responsabilidade e a ideia de que o outro também importa. Quando essa função é exercida com arrogância, desprezo ou agressividade, o que se transmite não é a noção de lei, mas a sensação de que regras existem apenas para os outros. A criança aprende menos pelo discurso e muito mais pelo exemplo. E exemplos de desqualificação, humilhação e brutalidade deixam marcas profundas na forma como alguém se relaciona com o mundo.

Precisamos parar, olhar para tudo isso e compreender o que está em jogo. Homens que transitam pelo poder, ainda que em cargos intermediários, frequentemente carregam consigo uma cultura de impunidade silenciosa, aquela que naturaliza privilégios e ensina que certas pessoas estão acima do julgamento social. Quando um pai com histórico político numa secretaria de Direitos Humanos reage atacando o advogado de uma vítima de estupro, ele encena publicamente essa lógica: a de que o sistema deve proteger os seus, e não necessariamente buscar justiça. Esse tipo de mentalidade é parte do caldo cultural que sustenta tantas violências invisíveis no país contra as mulheres.

Por isso, mais do que um episódio isolado, a cena revela algo inquietante: a falência ética de um pai que deveria representar responsabilidade e maturidade que seu filho não teve. Pais não são culpados automáticos pelos erros dos filhos, mas são, sem dúvida, os primeiros autores das referências morais que eles carregam. Quando um homem adulto escolhe a agressão verbal contra quem defende uma vítima de estupro, ele expõe ao país inteiro a pobreza de valores que governa sua própria casa e, consequentemente, a educação passada para seu filho. E talvez seja justamente aí que comece a explicação da vida desse marginal: não jurídica, mas humana. Os valores passados de pai para filho.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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