O melhor chapeiro da Zona Oeste de SP não sente frio… E nem calor.

Entre o barulho da chapa e o vapor do café, uma conversa cotidiana me revela que nem toda sensação, de fato, é experiência, e que algumas lições chegam disfarçadas de rotina

Uma das amizades mais improváveis, e mais sinceras que cultivei nos últimos tempos é com seu Araújo, chapeiro da padaria que funciona logo abaixo do meu prédio. Ele reina absoluto diante da chapa quente, onde o pão na manteiga encontra seu destino todas as tardes e fins de noite. Certo dia, a cidade anoiteceu tomada por chuva insistente e um frio que, até então, eu julgava rigoroso. Clientes entravam sacudindo os ombros, reclamando do vento, esfregando as mãos em busca de calor. Foi quando percebi seu Araújo, concentrado no trabalho, murmurando quase para si mesmo, em tom de espanto: como aquelas pessoas tinham a ousadia de dizer que estavam com frio. A frase ficou suspensa no ar, misturada ao cheiro de café recém passado.

Esperei o movimento diminuir e, aproveitando um raro instante de silêncio entre pedidos, perguntei por que as pessoas não poderiam ter o direito de sentir frio. Ele respondeu sem hesitar, olhando fixo para a chapa: “essas pessoas não sabem o que é passar frio.” Depois, veio a história. Quando chegou a São Paulo, décadas atrás, vindo do Norte do país, encontrou uma cidade muito diferente da que conhecemos hoje. Fui pesquisar depois: na rua onde moro atualmente quase não havia prédios, havia até uma chácara. Ele descreveu noites difíceis, tempos em que o frio não era comentário de balcão, mas condição inevitável, sem escolha possível, sem conforto para interromper o desconforto. Ali entendi que sentir frio é uma percepção; passar frio é uma circunstância que atravessa o corpo e a dignidade.

Tentando aliviar o peso da conversa, brinquei que ao menos eu tinha um álibi: sabia o que era calor, afinal vim do Rio de Janeiro, e São Paulo sempre me pareceu fria demais. Então, logicamente, por conhecer o calor, poderia eu sentir um frio maior que os demais mortais paulistanos. Seu Araújo sorriu de canto e respondeu novamente com a tranquilidade de quem não precisava elevar a voz para ensinar nada: “você também não sabe o que é calor.” E então vieram outras lembranças, outras histórias de trabalho duro, de sol excessivo, de realidades onde o calor não era estação do ano, mas obstáculo diário à sobrevivência. Naquele instante percebi que minha referência de desconforto sempre coube dentro de algum privilégio invisível. Minha vida, comparada à dele, tinha sido climaticamente protegida.

Saí da padaria naquele dia com uma sensação curiosamente terapêutica: entre o frio e o calor extremos, descobri que minha existência sempre habitou uma brisa gentil. Mais tarde soube que seu Araújo hoje também desfruta da própria brisa, conquistada não por acaso, mas por insistência. Alguns escolhem abrir a janela para sentir o vento; outros precisam arrombá-la para que o ar finalmente entre. Talvez o mais bonito dessa história seja entender que, mesmo sem ter passado frio ou calor de verdade, ninguém precisa atravessar a vida ileso da experiência humana. Às vezes basta escutar, com atenção sincera, as histórias de quem trabalha silenciosamente ao nosso lado para aprender que compreender o mundo também é uma forma de sentir coletivamente e, finalmente, de amadurecer por meio do outro dentro dele.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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