É extremamente bizarro perceber como o machismo ainda precisa diminuir mulheres para sustentar egos frágeis e justificar a derrota de um imbecil
A frase dita pelo zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, ao comentar que a Federação Paulista de Futebol “não deveria colocar uma mulher” para apitar jogos grandes, é comum e sintomática. Sintoma de um vício estrutural que ainda assombra o esporte e tantos outros espaços de poder: a necessidade masculina de reduzir mulheres à condição de exceção, de risco, de inadequação. O argumento vem embalado em falsa cordialidade (“com todo respeito”), como se o respeito pudesse coexistir com a exclusão. Não pode. Quando se questiona a competência de uma profissional pelo simples fato de ela ser mulher, não há ressalva que salve a intenção.
É curioso como a masculinidade insegura sempre precisa de um corpo feminino como escada. O jogo é “grande demais”, a pressão é “intensa demais”, a responsabilidade é “alta demais” e, subentendido, as mulheres seriam “menos”. A retórica é velha, repetida, cansada. Não se trata de análise técnica, não se trata de desempenho individual, não se trata de mérito. Trata-se de gênero. E quando o gênero vira critério para desqualificação, o que está em campo não é futebol: é misoginia explícita . É a velha estratégia de diminuir a mulher para manter intacto o saco murcho inflado.
O mais revelador é o álibi emocional: “sou casado, tenho mãe”. Como se conviver com mulheres imunizasse alguém contra o machismo. Não imuniza, e eu só lamento por elas. Amar mulheres na esfera privada não impede que se negue a elas autoridade na esfera pública. Essa dissociação é o retrato de uma cultura que ainda acredita que o lugar feminino é o da relação afetiva, da casa e do fogão. Não o da decisão, do comando, da arbitragem, da liderança. O discurso tenta ser protetor, mas escancara tutela. E tutela é outra forma de controle. É abuso.
É preciso ser intransigente diante disso. Não há mais espaço para tolerância pedagógica com quem insiste em usar o microfone para reforçar hierarquias misóginas. Mulheres não precisam provar que são capazes de apitar jogos grandes; já provaram. O que precisa ser questionado é por que ainda há homens que se sentem ameaçados por isso. Talvez porque, no fundo, saibam que competência não tem gênero, e quando o mérito deixa de ser monopólio masculino, o privilégio treme. E privilégio, quando treme, reage atacando. Mas o tempo da intimidação acabou. Imbecil.
