O lado sentimental dos golpes

Como interesses genuínos se transformam em isca nas mãos de ladrões de galinha, e também de golpistas profissionais

Há uma ingenuidade bonita em quem se aproxima por interesse legítimo: admiração, amor, parceria profissional, amizade. Mas, infelizmente, é dessa matéria-prima nobre que muitos golpes nascem. Não se trata apenas de dinheiro; trata-se de reconhecimento, de pertencimento, de fé no outro. O que está em jogo muitas vezes é o desejo de quem te procurou: é exatamente esse desejo que o golpista aprende a manipular. Fique sempre ligado para não ser surpreendido e o chão ceder sob os próprios pés ao perceber que a confiança oferecida de boa-fé foi convertida em instrumento de exploração.

Golpistas operam por um mecanismo clássico: o carisma. Ele identifica rapidamente o ponto de desejo da vítima, seja reconhecimento, amor, validação ou oportunidade, e devolve exatamente aquilo que ela quer ver. Não é coincidência; é leitura atenta das faltas. Ele escuta para mapear carências, não para acolher. A promessa que oferece é sempre sob medida, porque foi construída com as informações que a própria vítima, confiando, forneceu. Quando tiver certeza que está diante de um, não fale nada além de assuntos gerais e superficiais. Você, sua vida, jamais.

Pra início de conversa, saiba golpistas narcisistas se apresentam como essa imagem ideal: o parceiro perfeito, o investidor visionário, o amigo leal, o mentor generoso. Ele cria uma identificação rápida e intensa. A vítima sente que finalmente encontrou alguém que a compreende profundamente. Na prática, porém, trata-se de uma encenação cuidadosamente calculada. O vínculo se acelera porque é construído sobre fantasias compartilhadas, não sobre realidade testada.

Outro ponto fácil de perceber neles é o deslocamento de afetos antigos para novas figuras. Fora dela, pode se tornar terreno fértil para manipulação. O golpista percebe quando passa a ocupar um lugar simbólico importante, de salvador, de amor ideal, de autoridade, de alguém responsável, e explora esse lugar até o limite. Ele alterna reforço positivo e pequenas ausências estratégicas, criando dependência emocional. Quando a vítima começa a desconfiar, já está envolvida demais: investiu tempo, reputação, sentimento. E então vem o ataque: o pedido financeiro urgente, a proposta “irrecusável”, a chantagem sutil. O golpe não começa no pedido de dinheiro; começa muito antes, na construção de confiança.

É preciso dizer com todas as letras: interesses genuínos não são fraqueza moral. A vulnerabilidade não é culpa. O que transforma o afeto em armadilha é a perversão moral dessas pessoas para atingirem seus objetivos. Reconhecer os mecanismos psíquicos envolvidos não elimina a dor de ter sido enganado, mas devolve algo fundamental: a dignidade. Se escrevo com contundência, é porque sei que o silêncio protege o manipulador. E sempre que precisar, FALE! Se for preciso retirar do narcisista o palco invisível onde ele atua para cessar algum tipo de perseguição, lembre que o melhor alerta continua sendo a realidade observada. E protegida!

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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