A pulsão de morte encontrou a legitimação institucional para matar uma mãe de cinco filhos
Há momentos em que a barbárie não se apresenta como desvio, mas como método. O caso da execução de Thawanna da Silva Salmázio não é apenas mais um episódio trágico na crônica policial brasileira, ele bem pior: é a naturalização da violência como linguagem do Estado. É impossível não reconhecer aqui a atuação crua da pulsão de morte, conceito freudiano que descreve a tendência destrutiva que habita o humano, mas que, quando legitimada por instituições armadas, deixa de ser impulso e se converte em política.
O que deveria ser contido pelo aparato civilizatório, o uso da força como último recurso, parece ter sido invertido. A ação policial deixou de ser mediadora do conflito para procurar ansiosamente pelo conflito, se tornando sua expressão mais brutal. Há uma falha evidente: o agente do Estado não representa a lei, pelo contrário, vira seu próprio executor, dispensando mediações, protocolos e, sobretudo, a alteridade. A vítima vista como inimigo absoluto, figura que, na lógica psíquica, autoriza sua eliminação sem culpa.
Fiquei mal demais com mais esse episódio. Ele escancara os efeitos de uma doutrina de segurança pública orientada pelo confronto e pela produção de inimigos internos. Uma lógica que remonta ao paradigma da guerra, não da cidadania. Quando governos celebram indicadores de letalidade como sinais de eficiência, instauram uma pedagogia da violência que se infiltra na formação e na prática cotidiana dos agentes. O resultado é previsível: uma polícia sob a lógica da exceção permanente, onde o Estado de Direito é suspenso na periferia.
O mais perturbador, contudo, é a banalização. A repetição desses eventos não gera mais ruptura, mas anestesia. E é justamente aí que reside o maior perigo: quando a sociedade passa a tolerar, ou mesmo justificar, a eliminação sumária de vidas, o pacto civilizatório já foi corroído. Não se trata apenas de responsabilizar indivíduos, mas de interrogar o modelo que os forma, os autoriza e, em última instância, os absolve. No fim, não é apenas uma vida que se perde, uma mãe de cinco filhos que vai embora, é a própria ideia de humanidade que se dissolve sob o peso da indiferença institucionalizada. A defesa apresentada pela militar é escabrosamente mentirosa.
