Pai empresário de argentina que recebeu uma tornozeleira após injúria racial também usa o equipamento na canela por violência de gênero: herança psíquica e a reprodução do privilégio violento
A conduta de injúria racial protagonizada pela cidadã argentina no Rio de Janeiro não pode ser lida como um evento isolado ou algo pontual. O comportamento é o sintoma de uma estrutura de dominação onde o corpo do “outro” é desumanizado para reafirmar uma superioridade inexistente. Quando o indivíduo utiliza o insulto racista contra um trabalhador, ele está, na verdade, tentando restabelecer uma hierarquia de poder que acredita ser seu direito natural, uma crença alimentada por um contexto social que historicamente protege o agressor em detrimento da vítima.
A genealogia dessa violência torna-se ainda mais nítida ao observarmos o histórico familiar da agressora. O fato de seu pai, o empresário Mariano Páez, responder por crimes de violência de gênero na Argentina, e agora, assim como a filha, também fazendo uso de uma tornozeleira, estabelece um padrão de conduta fundado no abuso claro de poder. O ambiente doméstico é o primeiro laboratório de socialização, onde somos moldados. Se a figura paterna opera sob a lógica da agressão e do domínio sobre o vulnerável, a prole tende a introjetar que a violência é uma ferramenta legítima de resolução de conflitos e de autoafirmação no mundo.
Nesse cenário, a educação “que vem de casa” não se limita ao ensino de etiquetas, mas à transmissão de um narcisismo patológico. A filha, ao espelhar o comportamento agressivo do pai, ainda que sob uma roupagem diferente, como o racismo, demonstra a continuidade de uma herança psíquica. Para essa linhagem de pensamento, o mundo é dividido entre quem domina e quem é dominado; se o pai subjuga a mulher através da violência de gênero, a filha subjuga o trabalhador através da violência racial, mantendo vivo o ciclo da opressão sistêmica.
Também não seria desnecessário dizer que as disposições adquiridas na família se tornam ações automáticas no espaço público. A impunidade percebida ou a sensação de pertencer a uma classe “acima da lei” encoraja a reprodução desses estigmas. A agressão no Rio de Janeiro é o transbordamento de um caldeirão cultural doméstico onde a empatia foi substituída pelo autoritarismo. A jovem não apenas ofende um trabalhador; ela performa o papel de herdeira de uma estrutura que começou com o pai, no país vizinho.
