Nunes quer fazer como Paes, mas a multidão paulistana ultrapassa a cidade

Nunes quer fazer como Paes, mas a multidão paulistana ultrapassa a cidade

Superlotação em eventos acende alerta em São Paulo e expõe os limites de copiar modelos de outras capitais

O que se viu hoje em São Paulo foi um sinal claro de alerta. Dois grandes blocos acontecendo ao mesmo tempo, grades derrubadas, gente ferida e o risco real de um acidente grave e fatal mostram que a cidade está chegando a um limite físico que não pode ser ignorado. Carnaval sempre foi multidão, e ninguém espera ruas vazias, mas a sensação que ficou foi a de que, por alguns momentos, o controle simplesmente deixou de existir.

São Paulo construiu, com mérito, um carnaval de rua forte e vibrante, mas sua geografia impõe desafios muito próprios. É uma metrópole marcada por avenidas encaixadas entre prédios, ruas que afunilam, parques cercados por vias já congestionadas e poucos espaços realmente amplos para dispersão de grandes públicos. Diferente disso, o Rio de Janeiro tem áreas naturalmente abertas, sobretudo a orla, o Aterro do Flamengo e largas avenidas costeiras, que permitem a circulação de multidões com mais respiro.

Nos últimos dias, o prefeito Ricardo Nunes passou a sinalizar a intenção de ampliação de grandes shows abertos e eventos de massa, uma estratégia que muitos observadores e usuários nas redes sociais associaram à tentativa de repetir o modelo adotado por Eduardo Paes no Rio, onde espetáculos gratuitos têm movimentado a economia e o turismo. A ideia, em si, não é absurda; o problema está em ignorar que as duas cidades não oferecem as mesmas condições urbanas para esse tipo de concentração humana.

O episódio de hoje não deve servir para condenar a festa, mas para orientar decisões. Carnaval é espontâneo, o público vai para a rua, e isso não vai mudar. O que pode e precisa mudar é o planejamento. Se a expansão de eventos de massa em São Paulo continuar sem considerar os limites reais do espaço urbano, o que hoje foi um susto pode, em algum momento, se transformar em uma tragédia anunciada.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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