“Eduardo calado ajuda Flávio”. Já Malafaia de boca fechada, ajudaria o Brasil ainda mais…

É chegada a hora de separar o joio do trigo, enquanto ‘Manual Prático de Catequização de Votos’ continua a pleno vapor: primeiro catequiza-se a alma, depois orienta-se o voto.

Quando Silas Malafaia resolveu filosofar que “Eduardo calado ajuda Flávio”, ele talvez não tenha percebido que estava oferecendo ao país uma epifania involuntária. Porque se o silêncio é estratégico na política, talvez devêssemos testá-lo também no campo religioso-partidário. A tese é simples: se um ajuda ficando quieto, o outro poderia operar um verdadeiro milagre cívico adotando o voto de silêncio. Seria mais que ajudar Flávio, seria ajudar o ouvido precioso do brasileiro. Seria o primeiro avivamento realmente ecumênico da história recente com direito a aplauso de fiéis, ateus e até dos indecisos.

Malafaia nunca fez questão de esconder que sua vocação ultrapassa os limites do altar. O púlpito, para ele, é também tribuna; o dízimo, termômetro ideológico; e a ovelha, potencial eleitor. O método é quase pedagógico: primeiro catequiza-se a alma, depois orienta-se o voto. Tudo em nome de valores “inegociáveis”, conceito curioso que invariavelmente coincide com os interesses de determinados grupos políticos religiosos. Não há constrangimento, não há sutileza: há live, microfone e uma convicção inabalável de que Deus tem título de eleitor.

O problema não é a fé. A fé, quando não instrumentalizada, é íntima, transformadora e silenciosa. O problema é o balcão. É quando a liturgia vira estratégia de campanha e o “amém” como confirmação de urna. A igreja como linha de frente eleitoral é um arranjo antigo, mas ganha contornos particularmente explícitos quando lideranças religiosas assumem, sem pudor, o papel de cabos eleitorais ungidos. A fronteira entre o sagrado e o palanque deixa de ser tênue, simplesmente desaparece, soterrada por discursos inflamados e pela promessa de salvação… nas próximas eleições.

Na boa gente, chegou a hora de, literalmente, separamos o joio do trigo. Política x religião. Se o silêncio de um favorece o outro, quem sabe o silêncio de certos arautos políticos maquiados de pastores favorecesse o país. Menos sermão partidário, mais espiritualidade; menos comício dominical, mais evangelho. Menos manifestação pra soltar presidiário, e mais acolhimento com os pobres e necessitados. Seria revolucionário. E, ironicamente, cristão. Amém!

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Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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