Se o machismo não dorme, nossa luta também não pode dormir

Enquanto a violência, a desigualdade e o silenciamento persistirem, qualquer pausa será cumplicidade disfarçada de cansaço.

O machismo não é um resquício folclórico de um passado ultrapassado; ele é uma engrenagem ativa que move desigualdades concretas todos os dias. Ele está nas estatísticas brutais de feminicídio, na disparidade salarial persistente, na naturalização do assédio e na desqualificação sistemática da voz feminina em espaços de poder. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra números alarmantes de violência contra a mulher ano após ano, o que desmonta qualquer discurso confortável de que “já avançamos o suficiente”. Não avançamos. O que existe é uma maquiagem social que encobre uma estrutura ainda profundamente desigual.

A luta diária contra o machismo é necessária porque ele se reinventa. Ele troca o grito pela ironia, a agressão física pela humilhação sutil, a proibição explícita pelo descrédito disfarçado de opinião. Está na piada que diminui, no comentário sobre a roupa, na cobrança moral que não recai sobre homens, na cultura que ainda ensina meninas a se protegerem e meninos a se imporem. O machismo não é apenas um comportamento individual; é um sistema cultural que atravessa gerações. Combatê-lo exige vigilância constante, porque ele se infiltra justamente onde parece inofensivo.

Há quem peça “menos radicalismo” ou “mais equilíbrio” quando mulheres se posicionam com firmeza. Mas é preciso dizer com clareza: a moderação excessiva tem sido historicamente uma aliada da injustiça. Direitos não foram concedidos por gentileza; foram conquistados por insistência. O voto feminino, a tipificação do feminicídio, as leis de proteção como a Lei Maria da Penha nasceram da pressão constante de movimentos que se recusaram a esperar o momento “adequado”. O momento nunca é adequado para quem se beneficia da desigualdade.

Ser intransigente diante do machismo não é extremismo; é coerência ética. Não se trata de guerra entre gêneros, mas de uma disputa por humanidade plena. Enquanto meninas crescerem aprendendo a se diminuir para caber, enquanto mulheres forem interrompidas, desacreditadas ou violentadas por ousarem existir com autonomia, a luta precisa ser diária, incômoda e sem descanso. O silêncio favorece o agressor. A repetição da denúncia, ainda que cansativa, é o único antídoto contra a naturalização da violência. E naturalizar é perpetuar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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