Fiquei preso no elevador: dez minutos e uma reflexão inteira

No silêncio do elevador e imerso no ruído da minha mente, revelações dos meus abismos e novas promessas

Foram apenas dez minutos, mas o tempo, ali dentro, não obedecia ao relógio. O elevador parou seco, como se o mundo tivesse sido interrompido por um erro banal de engenharia, e, de repente, o controle escapou por entre os dedos. Naquele espaço mínimo, cercado de concreto e silêncio, e olhando uma parede de cimento cinza em minha frente, algo se expandiu: a sensação de estar suspenso não só entre andares, mas entre versões de mim mesmo. E então veio o fenômeno curioso, quase universal: a vida inteira desfilando diante dos olhos, como se a memória tivesse encontrado uma fresta para escapar.

A gente sabe que em momentos de perda abrupta de controle acionamos camadas profundas do inconsciente. Quando a realidade externa falha, quando uma porta não abre, quando o corpo não pode agir, a mente tenta restaurar algum tipo de domínio voltando-se para dentro. É como se a nossa mente dissesse: “já que não posso controlar o mundo, revisito minha história”. Trata-se de uma reorganização diante da ameaça. O elevador parado vira metáfora de uma suspensão existencial, onde passado, presente e futuro se embaralham numa tentativa urgente de dar sentido ao que pode, ainda que remotamente, parecer um fim.

Mas não é apenas o medo que emerge: é também uma estranha lucidez. No confinamento involuntário, longe das distrações e da pressa cotidiana, pensamentos que estavam soterrados vêm à tona com força. A mente oscila entre o pior cenário (“e se eu não sair daqui?”, “e se ele cair no poço?”, e uma espécie de renascimento imaginado: “quando eu sair, tudo será diferente”. É nesse intervalo que desejos esquecidos reaparecem, decisões adiadas ganham nitidez e verdades incômodas se impõem. O bloqueio físico, paradoxalmente, destrava algo interno.

Foi uma sensação estranha, como há bastante tempo não sentia. A situação aprisionou o meu corpo, meu espírito encarnado, mas libertou-se uma urgência que estava apagada em mim. Quando a porta finalmente se abriu, não foi só o elevador que voltou a funcionar: fiquei agora com uma sensação quase solene de segunda chance. A questão, então, deixa de ser o susto e passa a ser o que fazemos com ele. Enfim… sair dali com a promessa silenciosa de mudança é fácil; difícil é honrar, no fluxo da vida que recomeça, aquilo que a mente teve coragem de admitir no silêncio apertado entre quatro paredes preso no elevador.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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