Como a fusão entre convicção religiosa e militância política pode endurecer a cognição, e por que isso deveria nos preocupar como sociedade
Há um tipo de metamorfose pública que vale estudar como analista da alma: não se trata apenas de alguém que muda de crença, mas de alguém cuja fé religiosa se junta à identidade partidária até formar um único bloco inquebrável. Nos últimos meses vimos episódios em que artistas e figuras públicas deram esse salto: posturas religiosas passaram a ser lidas como posicionamentos políticos inquestionáveis, e a reação social foi de surpresa, repúdio e espanto. Esse tipo de confluência gera efeitos imediatos na reputação, mas também modifica, em profundidade, a arquitetura mental do indivíduo e da sua rede social.
Quando religião e política se fundem nasce uma “RELIGIÃO POLÍTICA” informal: símbolos sagrados, narrativas de salvação e inimigos morais passam a ordenar a ação coletiva. A literatura sobre religiões políticas e movimentos totalizantes mostra que esse entrelaçamento cria grupos com regras internas fortes, baixa tolerância à dissensão e altas barreiras para a reabertura do debate, condições perfeitas para a radicalização. Em termos operacionais, o fenômeno alimenta feedbacks institucionais e sociais (mídia, seguidores, incentivadores) que reforçam sinais de pertencimento e punem a ambiguidade: um sistema de reforço que molda escolhas políticas como se fossem ritos de fé.
O resultado termina sendo um indivíduo com rigidez cognitiva e atitudes extremistas, nem que para isso precise passar a ir contra a política, a justiça, e por aí vai… Quando crenças religiosas oferecem uma estrutura moral absoluta e a política fornece um inimigo concreto, cria-se um estreitamento do horizonte mental. Em linguagem menos técnica: a pessoa para de aprender aquilo que ameaça a crença e passa a interpretar o mundo por lente única. A partir daí é respeitar e lamentar.
O buraco é ainda mais profundo quando a fusão entre fé e causa política vira uma defesa contra angústias profundas: perda de sentido, culpa, ansiedade social. Não devemos naturalizar a confluência entre política e religião quando ela produz intolerância e fechamento. Defender a liberdade religiosa é uma coisa; já ignorar fatos, ser contra a ciência e contra o pluralismo é outra. A sociedade saudável precisa de espaços que valorizem dúvida e a crítica, e que todos sejam acolhidos, independentemente de credo. Só assim evitaremos que convicções se transformem em dogmas que atrasam o pensamento cultural e plural para sempre.
