Esse dado alarmante revela que o principal agressor divide o teto com a vítima, e o silêncio dura anos.
Os números são um soco no estômago. Em 2025, foram 24.434 denúncias de estupro de vulnerável no Brasil. Em 2026, até 22 de fevereiro, já são 3.573 registros. O dado mais perturbador não é apenas a escala; é o endereço. Em 45% dos casos, a violência ocorre na casa onde vítima e suspeito residem. O lar, idealizado como reduto de proteção, aparece reiteradamente como o principal cenário da violação. A infância brasileira está sendo ferida dentro do espaço que deveria garantir sua integridade física e simbólica.
A repetição desse padrão revela algo estrutural. A violência sexual contra crianças e adolescentes não é um desvio isolado: ela se infiltra na intimidade, sustenta-se no silêncio e prospera no poder. Quando o agressor divide o teto com a vítima, o abuso deixa de ser apenas um crime; torna-se um regime de controle cotidiano. O quarto, o corredor, a sala, espaços de convivência convertem-se em territórios de medo. E o medo, quando vivido precocemente, molda subjetividades, corrói a confiança básica no outro e instala uma marca que atravessa o desenvolvimento.
Há ainda um dado alarmante: 24% dos casos em 2025 e 26% em 2026 indicam que a violência começou há mais de um ano. Isso significa que milhares de crianças viveram sob repetição sistemática do abuso antes que a denúncia explodisse. O silêncio prolongado não pode ser interpretado como consentimento ou ausência de sofrimento; ele é, muitas vezes, efeito da dependência emocional, econômica e afetiva. A criança, para sobreviver, precisa acreditar que o adulto que a agride é também aquele que a sustenta. Esse paradoxo é devastador e explica por que a revelação costuma ser tardia, fragmentada e dolorosa.
A sociedade brasileira precisa abandonar a ilusão confortável de que o perigo está sempre fora de casa. A estatística mostra o contrário: o risco maior agora também mora dentro. A infância e a juventude não podem continuar submetidas a pactos de silêncio maquiados de normalidade familiar. Enquanto o debate público hesitar em enfrentar a dimensão íntima dessa violência, aquela que corrói vínculos e produz gerações marcadas por traumas invisíveis, continuaremos contabilizando denúncias como quem lê boletins meteorológicos. Não são números: são histórias interrompidas antes mesmo de começar.
