A tese não se sustenta: não existe evidência nem estudos de que ideologias sejam herdadas biologicamente ou garantidas apenas pela quantidade de descendentes. Filhos não são extensões ideológicas dos pais. E a própria História prova isso.
A ideia de que o feminismo estaria “fadado a desaparecer” porque mulheres mais escolarizadas têm menos filhos parte de um erro horroroso de Robin Hanson, levantado em artigo esta manhã no veículo: confunde taxa de natalidade com transmissão automática de valores. Não existe estudo que prove que ideologias sejam herdadas biologicamente ou garantidas apenas pela quantidade de descendentes. Filhos não são extensões ideológicas dos pais.
O segundo problema é empírico. Ao longo do século XX e início do XXI, sociedades com queda de natalidade ampliaram direitos das mulheres, consolidaram leis de proteção e expandiram a presença feminina na política e no mercado de trabalho. Se menos filhos significassem menos influência cultural, esses avanços não teriam ocorrido. A realidade mostra o contrário: ideias circulam por instituições, educação, mídia e redes sociais, não apenas dentro de casa.
Há também uma premissa implícita e problemática: a de que grupos religiosos ou conservadores manterão coesão ideológica estável ao longo das gerações. A experiência histórica demonstra que isso não é regra. Jovens frequentemente revisam ou abandonam crenças familiares. Mudanças culturais acontecem inclusive dentro de comunidades numerosas. Alta natalidade não garante permanência de valores.
Outro ponto frágil é tratar a decisão reprodutiva das mulheres como estratégia política coletiva. Mulheres com maior escolaridade tendem a adiar ou reduzir o número de filhos por razões econômicas, profissionais e pessoais. Isso não é um “projeto ideológico”, mas resultado de transformações sociais amplas. Reduzir essa escolha a um cálculo de poder distorce a realidade e reforça estereótipos.
Por fim, a tese ignora que ideias se fortalecem quando respondem a demandas concretas da sociedade. O feminismo não depende da quantidade de filhos de mulheres feministas, mas da capacidade de enfrentar desigualdades reais. Cultura não se decide no berçário. Decide-se na disputa pública, na produção de conhecimento, na formulação de políticas e na experiência cotidiana das pessoas. Demografia influencia sociedades, mas não determina o destino das ideias.
