Entre o nada e o porvir após a morte

Com a fé no futuro após a morte, consegui reorganizar meu coração e retirá-lo da paralisia silenciosa do niilismo em que ele se encontrava

Há um tipo de existência marcada por uma aridez quase invisível, mas profundamente corrosiva: a daquele que não crê em amanhã algum. Quando achamos que, após a morte, a luz se apaga e fim da linha. Quando o futuro se esvazia de sentido, o presente se contrai. A vida torna-se apenas matéria imediata, sem continuidade, sem promessa, sem construção. Nesse estado, as relações perdem densidade, a solidariedade vira ingenuidade, a fraternidade se transforma em uma palavra oca, e qualquer gesto de sacrifício contra os vícios parece irracional. O outro deixa de ser horizonte e passa a ser instrumento ou obstáculo. É o império do interesse imediato, onde o egoísmo se instala não como desvio, mas como lógica dominante. E, nesse terreno, até a violência pode se apresentar como razão.

Esse modo de estar no mundo produz uma espécie de paralisia moral. Se nada perdura, nada merece esforço verdadeiro. O trabalho perde sua dignidade, pois não há fruto que justifique o plantio; o conhecimento perde seu valor, pois não há futuro que o acolha; e a própria ética se dissolve, já que não há continuidade que sustente suas consequências. O sujeito, então, encolhe-se ao instante e, incapaz de projetar-se, passa a viver numa repetição empobrecida, uma vida sem elaboração, sem transcendência, sem qualquer impulso de construção. O niilismo, nesse sentido, não grita: ele esvazia.

Em contraste, comecei a estudar melhor a fé no progresso: não como ingenuidade, mas como escolha psíquica e ética. Foi o ponto de partida para reorganizar minha vida. Aquele que acredita no futuro após a morte não vive apenas para si, mas para aquilo que ainda virá. Seu trabalho ganha espessura, pois é investido de sentido; sua relação com o outro se amplia, pois reconhece que há um mundo em construção que não se esgota em sua própria experiência. Há, nesse sujeito, uma disposição para semear mesmo sem garantia imediata de colheita, porque ele compreende que o tempo não é inimigo, mas aliado. O presente deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser parte de uma cadeia de continuidade.

Foi essa fé, discreta, mas estruturante, que me salvou da estagnação silenciosa que ameaça aqueles que deixam de acreditar. Não se trata de otimismo ingênuo, mas de uma decisão de não sucumbir à lógica do vazio. Entendi que, para ser otimista, eu precisava ser muito mais corajoso do que os pessimistas. E assim me salvei do vazio. Acreditar no progresso é, antes de tudo, recusar a redução da vida ao imediato e insistir na dignidade do processo futuro de melhora, mesmo quando ele parece invisível. É sustentar a ideia de que há valor em construir, em aprender, em se transformar para crescer moralmente, não porque o retorno é garantido, mas porque a própria continuidade da vida exige esse compromisso. No fim, é essa fé que impede que o sujeito se dissolva e o mantém, ainda que imperfeitamente, em movimento.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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