Entre a Cruz e o nosso recomeço

O ensinamento da ressurreição e a dificuldade humana de compreender o amor que sustenta a mensagem

Há, na ressurreição, um ensinamento que escapa à pressa dos nossos dias: a vitória que não se constrói pela força da imposição, mas pela permanência do amor mesmo depois da queda. Jesus não retorna apenas como quem vence a morte; Ele retorna como quem reafirma que o sentido da vida não está em evitar a dor, mas em atravessá-la sem perder a essência. Ainda assim, séculos se passam e seguimos interpretando essa passagem como um milagre distante, quase teatral, quando na verdade ela é um convite íntimo e diário à transformação interior.

Talvez a dificuldade em compreender essa mensagem esteja na nossa insistência em valorizar o poder imediato, o aplauso rápido, a revanche silenciosa. A ressurreição não celebra o triunfo sobre os outros, mas sobre si mesmo: sobre o medo, o abandono, a descrença. É mais fácil acreditar em quedas definitivas do que em recomeços possíveis. É mais confortável culpar o mundo do que revisitar a própria forma de amar. E, assim, distorcemos o ensinamento: buscamos sinais extraordinários, mas ignoramos as pequenas ressurreições cotidianas que nos são oferecidas.

Há uma frase que veio agora à minha cabeça, como chave para essa compreensão: ‘quem te colocou onde você está tem mais força do que quem tenta te derrubar’. A ressurreição é, em essência, a prova disso. Aquele que sustentou Jesus até o fim foi maior do que tudo que tentou interrompê-lo. Não foram os cravos, nem a pedra no sepulcro, nem o julgamento humano que tiveram a palavra final. Foi a força invisível, silenciosa e absoluta do amor: esse mesmo amor que, tantas vezes, negligenciamos em nossas próprias histórias, como se não fosse suficiente para nos reerguer.

Talvez entender a ressurreição hoje seja menos sobre fé no extraordinário e mais sobre coragem no ordinário. É reconhecer que cair não nos desqualifica, e que levantar exige mais do que força: exige entrega. É confiar que há algo maior nos sustentando, mesmo quando tudo ao redor parece ruir. E, sobretudo, é aceitar que a verdadeira transformação não acontece no instante da dor, mas na decisão de não permanecer nela. A mensagem sempre esteve clara, nós é que ainda estamos aprendendo a escutá-la.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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