A verdade só aparece depois da Polícia Federal provar. Não há transparência. Há constrangimento inevitável e muito ‘angu com caroço’ a ser debatido…
A revelação de que Dias Toffoli só admitiu ser sócio da empresa Maridt após a Polícia Federal apontar e comprovar o vínculo escancara um problema que vai muito além de tecnicalidades jurídicas. Poderia ser apenas ‘uma coisinha’ de omissão patrimonial ou de uma formalidade esquecida em declaração pública. O ponto central é outro: a verdade só veio à tona depois que já não era mais possível negá-la. Confissão sob pressão não é gesto ético: é reação à evidência.
O episódio ganha contornos ainda mais graves porque envolve integrantes do mais alto tribunal do país, o Supremo Tribunal Federal. Gente, se um ministro admite participação societária apenas após relatório policial baseado em dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, todos os poderes sobre as peças investigatórias, na RELATORIA de um caso que vai contra o investimento que ele é sócio, já era…
A liturgia do cargo exige postura preventiva, transparência absoluta e compromisso público com a clareza. Todos foram rompidos. Esperar ser descoberto para depois explicar é incompatível com o padrão ético que se espera de quem julga a nação.
A decisão de Gilmar Mendes de anular a quebra de sigilo da empresa, sob o argumento de que a CPI extrapolou limites, pode até encontrar respaldo técnico no ordenamento sim… Mas o debate jurídico não apaga o desconforto moral. O que está em jogo não é apenas a validade de uma medida investigativa, e sim a conduta de quem permaneceu em silêncio até que a prova da Polícia Federal fosse incontornável. A ética pública não pode funcionar sob a lógica do “só admito se me pegarem”.
O mais perturbador é a falta de espontaneidade na revelação. Transparência verdadeira antecede a investigação, não nasce dela. Não dá para banalizar que a admissão veio apenas depois da apuração formal. Se tratando de um ministro do Supremo Tribunal Federal, o gesto deixa de ser voluntário e passa a ser compulsório. E num país cansado de escândalos, a sociedade não pode aceitar como normal que autoridades só assumam vínculos quando a prova já está sobre a mesa. Ética não é reação. Ética é princípio; e princípio não deveria depender de relatório da Polícia Federal para existir.
