Da saudação olímpica ao joelho no chão, a história prova que atletas sempre foram sujeitos políticos. Mas a Federação Internacional, e a nacional de Voleibol, ainda não foram capazes de entender…
A suspensão de Carol Solberg pela Federação Internacional de Voleibol reacende um debate que o esporte insiste em varrer para debaixo do tapete: atletas são cidadãos plenos ou personagens higienizados para consumo? Punida por “conduta antiesportiva” após manifestação política, a jogadora entra para uma longa linhagem de esportistas que ousaram lembrar ao mundo que quadras e estádios nunca foram territórios neutros. A tentativa de dissociar esporte e política é, além de ingênua, historicamente desonesta.
Em 1968, nos Jogos Olímpicos de Verão de 1968, Tommie Smith e John Carlos ergueram o punho cerrado no pódio em protesto contra o racismo nos Estados Unidos. Foram expulsos da delegação, mas o gesto atravessou décadas como símbolo incontornável de dignidade. Décadas depois, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino da National Football League para denunciar a violência policial contra pessoas negras. Sofreu retaliações, perdeu espaço profissional, mas desencadeou um movimento global. O esporte não foi “contaminado” pela política; foi revelado como palco legítimo de disputas sociais que sempre estiveram ali.
No Brasil, também não faltam exemplos. A histórica Sport Club Corinthians Paulista da chamada Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, estampava no uniforme a defesa do voto direto em plena transição democrática. O gesto não desqualificou o futebol jogado; ao contrário, ampliou seu significado. Mais recentemente, Megan Rapinoe utilizou títulos e entrevistas para defender igualdade salarial e direitos LGBTQIA+, consolidando-se como voz ativa dentro e fora dos gramados. Em todos esses casos, a história foi mais generosa que as entidades esportivas do momento.
A ideia de que o atleta deve ser neutro parte de uma ficção confortável: a de que o espetáculo esportivo existe num vácuo social. Não existe. Grandes competições são atravessadas por disputas geopolíticas, interesses econômicos e narrativas nacionais. Exigir silêncio político de quem está no centro desse palco é exigir submissão. E submissão jamais foi requisito ético do esporte que se funda, em tese, na coragem, na superação e na liberdade.
Se o esporte se orgulha de formar ídolos, precisa aceitar que ídolos pensam, sentem e se posicionam. O direito à manifestação não é concessão graciosa de federações; é garantia democrática. Sempre que uma entidade tenta enquadrar a voz de um atleta sob o rótulo de “antiesportiva”, corre o risco de repetir o erro histórico de confundir disciplina com censura.
