Eleitor que não é Bolsonaro, e também não é Lula, está aprisionado e precisará se decidir. País não tem terceira via eleitoral.
Não podemos ignorar que no Brasil há um tipo de eleitor com a sensação de escolha sem alternativa. À medida que se aproximam as eleições de 2026, a estrutura política parece oferecer apenas dois caminhos visíveis, ambos marcados por rejeições, e também aprovações significativas. Para além das preferências ideológicas, cresce um contingente de eleitores que não se reconhece em nenhum dos polos, mas que, ainda assim, se vê compelido a optar entre eles. Trata-se de uma liberdade formal que, na prática, se revela limitada: um cardápio restrito apresentado como pluralidade, mas com apenas duas vias eleitorais.
Isso pode ser compreendido como resultado de um sistema que, embora multipartidário em sua forma, funciona de maneira concentradora em sua dinâmica real. A chamada “terceira via” surge ciclicamente, mas nunca aparece e acaba virando meme. Fatores institucionais, como financiamento, tempo de exposição e coalizões, acabam por reforçar essa lógica binária. Pode não ser uma polarização clássica, mas um estreitamento das possibilidades viáveis, um funil que conduz o eleitor a escolhas previamente delimitadas.
Para esse terceiro eleitor sem opção, o cenário produz um efeito de angústia política. O sujeito, confrontado com opções que não o representam, experimenta uma espécie de mal-estar diante da própria participação democrática. Votar deixa de ser um ato de identificação e passa a ser, muitas vezes, um gesto defensivo: escolhe-se não o que se deseja, mas o que se rejeita menos. Esse deslocamento do desejo para o medo altera a própria qualidade do vínculo entre indivíduo e e sociedade, enfraquecendo a dimensão da sua representação social.
Acontece algo muito ruim para esse terceiro eleitor: um descolamento entre sociedade e sistema político. Aquela clássica frase surge com o tempo: “eu não voto, não faço parte disso”. Em um contexto de crescente complexidade social, com identidades, demandas e visões de mundo cada vez mais fragmentadas, a oferta política permanece rígida e pouco permeável. Apenas dois lados. O resultado é um sentimento de não pertencimento nessa pessoa, que não necessariamente se traduz em abstenção, mas em participação esvaziada de sentido. Nesse quadro, a minha humilde e despretensiosa tese pode ganhar força: talvez o Brasil não esteja simplesmente polarizado: esteja, antes, encurralado em uma estrutura que limita a emergência do novo e mantém o eleitor em um ciclo de escolhas entre A ou B.
