São 18 anos seguidos no topo. Violência contra pessoas trans deixou de ser estatística e revelou um fracasso psíquico, político, midiático e social coletivo. Todos somos culpados.
Ser, por dezoito anos consecutivos, o país que mais mata pessoas trans no mundo não é um acidente histórico nem uma distorção estatística: é um projeto sustentado por omissão, cinismo e uma pedagogia da crueldade. Diante de dados tão reiterados e alarmantes, a pergunta já não é “o que está acontecendo?”, mas “como seguimos permitindo?”. Há algo de profundamente perverso na naturalização dessa barbárie, como se a repetição dos números tivesse anestesiado a capacidade de choque, deslocando o horror do campo ético.
O diagnóstico é CHOCANTE. O Estado brasileiro falha não por ausência de dados, mas por excesso de conivência. Quando estatísticas se acumulam sem gerar políticas públicas robustas, orçamento consistente, proteção efetiva e responsabilização exemplar, o que se tem é uma escolha política clara: algumas vidas são tratadas como descartáveis. A democracia, aqui, opera com cidadanias hierarquizadas, em que direitos são condicionados à adequação moral, religiosa ou estética. Não se trata apenas de violência social, mas de necropolítica administrada com discursos de neutralidade.
A indignação precisa ser intransigente porque o problema não é falta de debate, e sim a falência da vontade coletiva. O país que se diz cordial, diverso e plural convive com um pacto silencioso de extermínio, sustentado por piadas, sermões, votos e silêncios. Cada morte trans carrega não só o dedo do agressor, mas a assinatura de uma sociedade que prefere a manutenção do conforto moral à ruptura necessária. É mais fácil culpar “casos isolados” do que admitir um sistema inteiro contaminado.
Persistir nesses dezoito anos não é apenas um escândalo internacional; é um retrato cruel de quem somos enquanto nação. Enquanto o assassinato de pessoas trans não for tratado como emergência civilizatória, e não como pauta identitária periférica, continuaremos fracassando ética, psiquicamente e politicamente. A pergunta final, talvez a mais perturbadora, não é por que morrem tantos corpos trans, mas o que ainda precisa morrer em nós para que isso continue parecendo aceitável.
