Banco Master: ‘Surubão de Noronha’ vira estagiário diante do ‘Surubão de Trancoso’

Promiscuidade agora deixa de ser privada e passa a ser também institucional

O chamado “surubão de Noronha” sempre ocupou um lugar curioso no imaginário nacional: uma mistura de folclore digital, moralismo seletivo e voyeurismo de rede social. Era o escândalo perfeito para distrair a plebe: artistas com corpos perfeitos, arquipélago paradisíaco, segmento conveniente. Um entretenimento moral para quem gosta de apontar o dedo sem precisar olhar para Brasília. Mas eis que surge Trancoso, elevando o conceito a outro patamar. Aqui, a brincadeira perde o tom de fofoca e ganha estatura institucional. Não é mais sobre quem transa com quem: é sobre quem governa enquanto transa.

O “surubão de Trancoso”, que envolveria políticos e magistrados na mansão de Vorcaro como relatado com naturalidade constrangedora, não disputa protagonismo com Noronha por excesso de luxúria, mas por densidade política. Sai o hedonismo turístico, entra o networking estratégico. Não são influenciadores ou atores, mas personagens que, em tese, ditaram os rumos do país. Políticos, magistrados, empresários. Gente que, de dia, assina decisões; à noite, supostamente vira conteúdo sensível. O escândalo aqui não é a carne, é o conflito de interesses em traje de banho.

Há quem acredite que basta chamar de “festinha quente” para dissolver qualquer gravidade institucional. É a infantilização da crítica como método de defesa: se eu trato como piada, não pode ser crime; se eu rio, não preciso explicar. Um deboche que tenta anestesiar o que deveria causar alarme.

Na boa, acho agora que o surubão de Trancoso não substitui o de Noronha: ele o humilha. Porque aqui não estamos falando de moral sexual, mas de ética pública em estado de ressaca permanente. Não é sobre camas desarrumadas, mas sobre cargos bem arrumados demais para quem deveria manter distância de certos sofás, certas piscinas e certas câmeras. O riso, nesse caso, é necessário. Mas não para aliviar, e sim para escancarar o absurdo de um país onde o poder, aparentemente, também gosta de surubas.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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