Amor de ‘Parça’: a revolta do Pateta pelo Mickey

Se Neymar fosse o Mickey, a Disney já teria revisado o contrato criativo há tempos, não por falta de carisma ou talento, mas por inconsistência na execução do papel principal.

O “pateta” amigo do Mickey resolveu se manifestar. Foi assim que chegou a carta aberta de Rafael Zulu ao técnico Carlo Ancelotti, numa tentativa quase pueril de defender Neymar com uma analogia que mistura Disney, Mickey Mouse e Copa do Mundo como se tudo coubesse no mesmo roteiro encantado. Mas não cabe. E talvez seja justamente esse o problema: tratar futebol de alto rendimento como fantasia infantil à moda ‘parça’.

A ideia de que “a Disney não existe sem o Mickey” tenta elevar Neymar a uma condição insubstituível, quase mítica. Mas o campo esse território implacável onde reputações são testadas, não funciona com metáforas simpáticas. Diferente do Mickey, que sustenta um império com consistência narrativa, Neymar tem oscilado entre lampejos de genialidade e longos períodos de ausência, seja física, seja competitiva. A crítica não é sobre talento, que ele tem de sobra, mas sobre entrega, algo que não se terceiriza nem se justifica com storytelling de rede social.

Há um descompasso evidente entre a defesa apaixonada dos “parças” e a realidade objetiva do desempenho. Há uma vergonha ainda maior quando alguém manda um técnico com a bagagem do Ancelotti se situar. Muita soberba! Chega a ser patético. Seria como ver um técnico de futebol se dirigindo com tamanha arrogância a atuação de um ator em uma novela. Futebol de seleção exige regularidade, liderança e protagonismo nos momentos decisivos. E é justamente nesses momentos que o roteiro de Neymar tem falhado. Se Neymar fosse o Mickey, a Disney já teria revisado o contrato criativo há tempos, não por falta de carisma, mas por inconsistência na execução do papel principal.

No fim, a analogia desmorona porque parte de um equívoco básico: a Copa do Mundo não é um parque da Disney. Analogia pior, impossível. Não há fila preferencial para amigos, nem personagens garantidos por afinidade. Não haverá amigos viajando nas costas do menino Ney nessa Copa. Se fosse, como bem ironiza a própria lógica do argumento, os “parças” estariam todos escalados. Mas ali, diferente da fantasia, o ingresso se conquista com desempenho, e não com cartas abertas que mais parecem roteiros rejeitados de um clássico personagem da Disney: o Pateta.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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