A Terra cabe no olhar

E, de repente, nossos abismos parecem menores do que julgávamos

As recentes imagens divulgadas pela NASA, captadas em missões que atravessam o silêncio absoluto do espaço, devolvem à humanidade um espelho raro: o da própria pequenez. A Terra, tão vasta para quem a pisa, surge suspensa, delicada, quase tímida diante da imensidão escura. Não há fronteiras visíveis, não há disputas aparentes, não há ruídos, apenas um corpo azul flutuando, inteiro, indivisível. É um tipo de beleza que constrange, porque revela, com uma honestidade quase cruel, o quanto ampliamos nossas dores quando estamos mergulhados nelas.

Vejo algo extremamente humano na incapacidade de medir o próprio sofrimento. Quando estamos dentro de um conflito, ele ocupa todos os cantos possíveis da experiência, como se não houvesse exterior. O olhar, colado à ferida, perde a noção de escala. E então sofremos como se o mundo inteiro coubesse naquele instante. Mas bastaria um deslocamento, não físico, mas interno, para perceber que aquilo que parece absoluto talvez seja apenas um fragmento. Um ponto. Um pequeno território emocional dentro de um mapa muito maior.

As imagens vindas do espaço funcionam, assim, como uma metáfora silenciosa daquilo que nos falta no cotidiano: perspectiva. Não a frieza de quem ignora a dor, mas a delicadeza de quem a reposiciona. Ver de cima não é desmerecer o que se sente: é, ao contrário, criar espaço para respirar dentro da própria experiência. É entender que, embora legítimo, o sofrimento não é tudo o que existe. Há camadas, há distâncias, há um mundo inteiro que continua girando, mesmo quando nos sentimos paralisados.

Talvez seja esse o convite mais íntimo que essas fotografias nos fazem: aprender a subir, ainda que simbolicamente, alguns metros acima de nós mesmos. Olhar para a própria vida com a mesma serenidade com que se observa a Terra lá de longe. E, quem sabe, perceber que muitos dos nossos abismos, quando vistos de outro ângulo, não deixam de existir, mas se tornam atravessáveis. Definitivamente, a Terra gira em torno do Sol. E nem eu, nem você, somos o Sol.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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