A salvação não é para os perfeitos

Estava nos planos de Deus a sua crucificação entre dois marginais pecadores. O que Ele quis ensinar com isso?

Há um detalhe na crucificação de Jesus Cristo que jamais pode ser lido como acaso: Ele não está só. À sua direita e à sua esquerda, dois criminosos. A cena não é apenas histórica; é profundamente pedagógica e proposital. No coração do suplício, Deus escolhe se posicionar entre os culpados. Não acima deles, não distante, mas ao lado. Menos discurso e carne ferida: a encarnação não termina no nascimento, ela se consuma na escolha de morrer onde ninguém gostaria de estar, no lugar dos indignos.

Ao ser crucificado entre dois marginais, Cristo desmonta a lógica humana de merecimento. A cruz não é um palco para os justos, mas um abrigo extremo para os que falharam. Um dos ladrões o rejeita; o outro, em um lampejo de lucidez, reconhece ali algo maior que a dor e pede para ser lembrado. Esse pedido simples, quase desesperado, é respondido com uma promessa eterna. “Hoje mesmo, você entrará comigo no Reino dos Céus”. Não há mérito, não há reparação prévia, apenas reconhecimento. A salvação, nesse gesto, se revela como graça pura: um presente que não se compra, não se negocia, não se merece.

É inevitável perceber o desconforto que essa imagem provoca. Porque, no fundo, ela desmonta a fantasia de controle moral que tantas vezes sustenta a religiosidade. Se Cristo está entre criminosos, então a proximidade com Deus não depende de uma biografia impecável, mas de um coração que se abre, ainda que no último instante. A cruz, assim, não separa bons e maus, ela expõe que todos, de algum modo, compartilham da mesma condição de queda. E, mais ainda, anuncia que nenhum abismo é profundo demais para o alcance da misericórdia.

Talvez seja por isso que essa cena permaneça tão perturbadora e tão bela. Ela não nos convida à complacência com o erro, mas à humildade diante da própria fragilidade. Entre dois culpados, Cristo ocupa o centro: não como juiz, mas como ponte. A mensagem é radical: Ele não veio para confirmar os que já se julgam salvos, mas para resgatar os que sabem que estão perdidos. E, nessa geografia da dor, redefine para sempre onde Deus escolhe habitar: não no topo da virtude humana, mas no meio das nossas ruínas, onde ainda é possível recomeçar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

LEIA MAIS

O sagrado se curva ao desejo e o púlpito se torna balcão de pagamento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *