A injustiça com a Mocidade não coube no mapa do Carnaval

Excelência estética e impacto popular não se convertem em nota para os jurados. Algo precisa ser revisto

O desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel em homenagem a Rita Lee não foi apenas uma apresentação correta. A escola entregou conceito, coesão estética, narrativa inteligível e emoção genuína. Transformou a irreverência tropicalista de Rita em linguagem visual pulsante, costurando psicodelia, rock e brasilidade com acabamento plástico de alto padrão. Não houve excesso gratuito nem alegoria vazia: cada elemento dialogava com o enredo, respeitando a biografia da homenageada sem cair na obviedade. Carnaval é síntese, e a Mocidade sintetizou com inteligência rara.

Do ponto de vista técnico, era impossível ignorar a consistência. A comissão de frente foi teatral e comunicativa, o casal de mestre-sala e porta-bandeira evoluiu com segurança e elegância, a bateria imprimiu identidade rítmica sem comprometer a harmonia, e o samba-enredo: daqueles que ficam na boca do povo; sustentou o canto da comunidade do início ao fim. Alegorias bem resolvidas, fantasias caprichadas, acabamento limpo e leitura clara na avenida: quesitos que costumam definir os melhores colocados estavam ali, entregues com rigor. A crítica especializada foi praticamente uníssona ao reconhecer a força estética e a vibração popular do desfile.

E há o dado incontornável: a Sapucaí foi sacudida. Carnaval também é impacto, é comunicação imediata com arquibancada e frisas. A Mocidade teve pulso, teve energia, teve resposta. Mesmo integrantes de outras escolas, nos bastidores e nas conversas francas pós-desfile, reconheceram que houve um peso difícil de explicar nas notas atribuídas. Quando a percepção de descompasso entre o que se viu na avenida e o que se registrou nos mapas se torna quase consensual, o problema deixa de ser clubismo e passa a ser critério. Julgamento técnico não pode ser impermeável à evidência coletiva.

Não se trata de desmerecer quem chegou ao topo, mas de afirmar com clareza: a Mocidade Independente de Padre Miguel reuniu qualidades suficientes para figurar no sábado, no desfile das campeãs. Pelo enredo bem amarrado, pela execução consistente, pelo impacto popular e pela reverência sofisticada a Rita Lee, a escola construiu um desfile de alto nível competitivo. Carnaval é arte, mas também é régua. E quando a régua parece encolher justamente para quem ousou brilhar, cabe à crítica especializada, com conhecimento de causa e sem concessões, dizer o óbvio: a Mocidade foi, sim, uma das grandes campeãs morais da avenida.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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