A filosofia das pequenas irritações

Breves reflexões sobre os minúsculos absurdos que todo mundo vive, mas ninguém admite

A vida moderna não é feita apenas de grandes dramas. Na verdade, boa parte do nosso desgaste emocional vem de pequenas irritações cotidianas que se repetem silenciosamente todos os dias. São episódios aparentemente insignificantes, mas que possuem um curioso poder de testar a paciência humana. Não estamos falando de crises existenciais profundas, mas de situações muito mais perigosas: aquelas que parecem pequenas demais para reclamar, mas grandes o suficiente para incomodar.

Um exemplo clássico é o indivíduo que recebe um áudio de dois minutos e responde com um solene e minimalista “ok”. Trata-se de um fenômeno de comunicação fascinante. Alguém dedicou cento e vinte segundos da própria vida para explicar uma situação complexa, talvez com nuances emocionais, detalhes logísticos e até certa carga dramática, e recebe de volta duas letras. Nem confirmação real, nem comentário, nem reação. Apenas um “ok”, que pode significar absolutamente qualquer coisa entre “entendi” e “não ouvi nada”.

Outra figura curiosa da vida contemporânea é aquela pessoa que envia a mensagem: “posso te fazer uma pergunta?”. Em princípio parece algo simples, mas o problema é que, após essa frase inicial, o indivíduo simplesmente desaparece. O destinatário então fica preso numa espécie de suspense psicológico involuntário. Que pergunta será essa? É algo grave? É um favor impossível? O cérebro humano, naturalmente dramático, passa a imaginar todas as possibilidades enquanto o autor da mensagem segue vivendo tranquilamente a própria vida.

E existe ainda o pequeno drama existencial dos elevadores. Quem entra em um elevador cheio conhece bem aquele momento delicado em que surge uma pergunta fundamental: para onde olhar? Olhar para o painel parece ansiedade. Olhar para o celular parece isolamento social. Olhar para as pessoas parece suspeito. No fim, todos escolhem encarar o vazio com a concentração de quem está analisando profundamente a textura da porta metálica enquanto aguardam, em silêncio absoluto, o momento libertador em que finalmente a porta se abre.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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