O quê acontece quando indicadores são ignorados, para que um sentimento passe a tentar decidir o destino do país.
Há um deslocamento silencioso em curso no Brasil contemporâneo: a economia deixou de ser um campo predominantemente técnico para se tornar uma experiência subjetiva, quase íntima. Ainda que indicadores clássicos como inflação controlada em certos períodos, crescimento moderado do PIB ou estabilidade cambial, a percepção popular de parte da população parece seguir outro rumo. Pesquisas recentes indicam que quase metade dos brasileiros acredita que a situação econômica piorou. Esse descompasso, mesmo com recorde de vendas na Páscoa, com empresários celebrando a venda de R$ 300 milhões em um único dia, revela um fenômeno que é interessante tentarmos mapear com mais atenção: não é mais o dado que organiza o voto, mas o sentimento que ele desperta.
A economia, antes mediada por números dos indicadores, parece que passou a operar no registro da angústia e da insegurança difusa. O sujeito não responde apenas ao preço objetivo dos bens, mas à perda de controle, erosão de expectativas, fragilidade do futuro. A inflação, por exemplo, não é apenas um índice, é uma experiência repetida de frustração cotidiana. Nesse sentido, a percepção econômica negativa não é um erro cognitivo, mas uma elaboração psíquica coerente diante de um mundo percebido como instável.
Isso impõe uma reconfiguração relevante. Modelos tradicionais de comportamento eleitoral, baseados em avaliações racionais de desempenho econômico, tornam-se insuficientes para explicar a dinâmica atual. O que emerge é uma “economia afetiva do voto”, em que emoções como medo (jogadas no campo social por políticos que trabalham a política do medo, como Trump, por exemplo, ressentimento e desconfiança passam a ter peso decisivo. O resultado é um campo político mais volátil, menos previsível e mais suscetível a discursos que capturam estados emocionais, ainda que distorçam a realidade factual.
A consequência é profunda: o Brasil ingressa na era da economia emocional, em que a disputa política não se trava apenas sobre propostas ou resultados, mas sobre narrativas capazes de organizar afetos coletivos. Governar, nesse contexto, deixa de ser apenas produzir bons indicadores, passa a exigir a construção de sentido, de segurança, de confiança compartilhada. Ignorar isso é insistir em uma racionalidade que já não encontra ressonância social. E, como a história recente tem demonstrado, onde os dados não alcançam, a emoção decide. Um olho aberto nos indicadores, e outro fechado para as emoções, é uma boa saída.
