Tive uma pequena revelação sobre meus preconceitos silenciosos e as delicadezas que a vida insistiu em oferecer
Havia quase um ano que eu repetia o mesmo gesto: ao pedir uma simples saladinha com um grelhado no trabalho, dispensava com certa convicção um dos molhos oferecidos. Mostarda com mel. Só a ideia me causava estranhamento; o mel, sobretudo, me parecia intruso demais no território do salgado. Cheguei a registrar na observação que não era necessário. Criava até uma expressão involuntária de rejeição, como se o paladar pudesse antecipar o que jamais havia experimentado. Era uma recusa automática, dessas que nascem não da experiência, mas da suposição.
Hoje, porém, um pequeno acidente desarmou minha certeza. O potinho veio por engano, caiu, abriu, e um pouco do molho tocou meus dedos. Num gesto quase infantil, instintivo, levei-os à boca antes mesmo de pensar. E ali estava uma surpresa: não era excessivamente doce, não era estranho, não era nada do que eu havia imaginado. Era, ao contrário, delicado, equilibrado, delicioso. Fiquei ali por um instante em silêncio, não apenas saboreando o molho, mas percebendo, com certo espanto, o tempo que eu havia passado rejeitando algo que, afinal, era bom.
Continuei com isso na cabeça retornando do trabalho. Pensando como o ser humano cria atalhos mentais para proteger-se do desconhecido. É um mecanismo antigo, útil em muitos momentos, mas que também nos aprisiona em preconceitos sutis, quase invisíveis. Não apenas sobre sabores, mas sobre pessoas, oportunidades, ideias, afetos. Quantas vezes fechamos a porta antes mesmo de tocar a maçaneta? Quantas experiências deixamos do lado de fora porque acreditamos saber, antecipadamente, o que elas são?
Talvez a vida seja, em grande parte, uma coleção de mostardas com mel que recusamos sem provar. E talvez a maturidade consista justamente em reaprender a experimentar, a duvidar das nossas certezas, a permitir que o acaso, ou um pequeno acidente, nos apresente novos sabores. Porque, às vezes, aquilo que imaginamos que não nos serviria é exatamente o que faltava para tornar o dia mais interessante, mais amplo, mais humano. E é curioso pensar que, por vezes, a felicidade não está em buscar algo extraordinário, mas em simplesmente dar uma chance ao que sempre esteve ali, silenciosamente à nossa espera. No meu caso, um potinho de mostarda com mel.
