Depois do cão Orelha, da capivara, chegou a vez do elefante-marinho. Mantenho o posicionamento das colunas anteriores: estamos todos condenados
A morte do elefante-marinho Leôncio, no litoral de Jequiá da Praia, não foi apenas crueldade, mas um retrato perturbador de um tipo de sujeito que já não reconhece limites entre o impulso e o ato. Matar um animal indefeso, ainda mais de forma prolongada, com olhos arrancados, exige mais do que ignorância: exige uma espécie de anestesia moral, um corte íntimo e afastado com qualquer vestígio de empatia. Não é um “desvio momentâneo”, mas uma escolha que revela um funcionamento interno onde o outro, seja humano ou não, deixa de existir como alguém digno de cuidado.
Uma tentativa primitiva de afirmar poder. Quem mata o que não pode se defender está, na verdade, encenando uma fantasia de controle diante de suas próprias fragilidades. É o triunfo ilusório de quem não suporta a própria impotência e, por isso, precisa produzir dor fora de si para não encarar o vazio que carrega por dentro. A violência, aqui, não é impulso cego: é linguagem. É a forma mais rudimentar de dizer “eu existo” quando faltam recursos internos para sustentar a própria existência com dignidade.
Mas é preciso dizer com todas as letras: não há qualquer traço de grandeza nisso. Há miséria emocional. Há falência ética. E há, sobretudo, uma escolha deliberada de não se responsabilizar pelo próprio mundo interno. A sociedade que relativiza esse tipo de ato falha duplamente: primeiro, ao não nomear a gravidade do que aconteceu; depois, ao não reconhecer que esse tipo de sujeito não surge do nada, mas se constrói na ausência de limites claros, de educação afetiva e de responsabilização.
A lição que fica não é confortável, mas é necessária: quem é capaz de infligir dor a um ser indefeso já atravessou uma fronteira perigosa dentro de si. E essa travessia não pode ser tratada com complacência. Não se trata apenas de punir, trata-se de afirmar, como sociedade, que há linhas que não podem ser mais cruzadas sem consequências profundas. Chega! A forma como tratamos os mais vulneráveis, inclusive os que não falam, é o que define, de fato, quem somos.
