Investigação, relatórios, conclusões, e uma certeza: o pretexto da fé virou escudo para pilantras no Congresso, no Senado, e no Supremo.
O que escrevo agora não é apenas uma denúncia, mas um mecanismo organizado e leviano: o silêncio social diante de uma blindagem política que envolve determinadas estruturas religiosas envolvidas até a alma nos escândalos políticos. Púlpitos que trazem votos. Nesse caso, não se trata de fé, é preciso insistir nisso com rigor, mas de poder. Esse silêncio todo agora pode ser lido como um pacto: a sociedade escolhe não confrontar aquilo que, de algum modo, também a sustenta.. A igreja, enquanto lugar de amparo e sentido, torna-se intocável, mesmo quando há indícios de desvio e corrupção. Deve ser porque criticá-la pode parecer profanação. E assim, o recalque coletivo acontece: não se nega frontalmente o problema, apenas se evita olhar para ele.
Essa blindagem ganha contornos estruturais. Algumas Igrejas que conhecemos bem, tipo essa organização da ‘Lagoinha’, não apenas acolhem fiéis: elas organizam redes de pertencimento, assistência e identidade e, hoje, pleito eleitoral, ou seja, fonte de votos. E é justamente aí que elas passam a ser protegidas por agentes políticos. Cria-se uma zona de imunidade, onde investigações são relativizadas e denúncias contra Igrejas perdem força. O fiel, muitas vezes inserido em uma lógica de dependência, não se percebe como cidadão diante de um possível ilícito, de roubo, de lavagem de dinheiro, de fraude, e de aplicação do dízimo pago, que vai sendo dirigido para caixas de campanhas e bancando as mansões dos pastores bilionários no Brasil e no exterior, e não para obras sociais. É um sistema que já opera consolidado na sociedade, e que ainda conseguiu salvo-conduto para não pagar impostos, o que torna a corrupção mais ativa ainda.
A blindagem de instituições religiosas por interesses políticos não apenas compromete o princípio da laicidade, como também cria um canal privilegiado para a circulação de poder e influência sem o devido escrutínio público. Quando há suspeitas de envolvimento em esquemas financeiros ilícitos, como lavagem de dinheiro, a ausência de investigação rigorosa não é um detalhe: é a regra.
Uma crítica séria precisa, portanto, romper com o conforto da reverência religiosa, por se tratar de algo que nos remete ao divino. Aliais, acredito que, não por falta de força de vontade, o divino direcionará esses pastores e políticos direto para o quinto dos infernos. É importante também ressaltar mais uma vez: minha crítica não é um ataque à fé; ao contrário, eu deixo aqui uma defesa daquilo que a fé deveria representar em sua forma mais íntegra: honestidade. O que está em jogo é a captura do sagrado por interesses que o utilizam como escudo moral e político. Enquanto essa blindagem persistir, não apenas a democracia se fragiliza: a própria espiritualidade se degrada, convertida em instrumento de poder para gente safada e corrupta, onde deveria haver consciência, fraternidade, caridade, ética e, acima de tudo, tenência a Deus.
