O corpo da verdade: o Jornalismo não se cala diante da tortura

Depoimento de Miriam Leitão me trouxe uma lembrança do passado: as histórias do meu avô sobre outro período sombrio: a década de 30, quando foi perseguido pelo coronel Filinto Muller

O relato de Miriam Leitão, exibido ontem no especial sobre os 100 anos do jornal O Globo, foi mais do que comovente: foi um lembrete brutal do que acontece quando o poder autoritário transforma jornalistas em inimigos públicos. Miriam não narrou apenas uma história pessoal, ela expôs a anatomia da tortura, da humilhação e da tentativa sistemática de silenciar a imprensa durante a ditadura civil-militar de 1964. E, mais do que isso, denunciou o horror de ver suas dores ridicularizadas décadas depois, em plena democracia, por um ex-presidente da República. O riso de Jair Bolsonaro diante do sofrimento dela não foi apenas cruel; foi simbólico. Um escárnio dirigido a todos que ousam contar verdades incômodas ao poder.

E a primeira delas chegou a mim pelo meu avô, quando eu tinha apenas 15 anos, e ele explicava o que presenciou entre seus 25 e 35 anos, durante a década de 30″. Advogado pela faculdade de Direito de Niterói na turma de 1940, e também jornalista (inscrição 7136, no livro 25, no Ministério do Trabalho), passou a sofrer perseguições quando redator da Rádio Clube do Brasil (gestão Samuel Wainer), época em que passou a narrar seus artigos chamados “Psicologia das Relações Humanas no Trabalho). Crônicas passaram a ser uma sentença de morte para o meu avô. Já minha avó se preocupava com os livros que meu avô jogava na mochila. Para ela, aquela era uma verdadeira sentença de morte.

Em que pese meus avós terem me poupado detalhes mais duros dessa época, e acho que eu não dei a devida atenção ao assunto, ainda tão imaturo, já era o suficiente para compreender, politicamente e historicamente, o que foi a tortura para jornalistas durante a ditadura. Foram dezenas de profissionais presos arbitrariamente, espancados, eletrocutados, pendurados em paus de arara, estuprados, mutilados, tudo isso apenas por escrever, por apurar, por imprimir, por ler. A tortura não foi um “excesso”, foi uma política de Estado. E ela mirava, entre outros alvos, a imprensa. Silenciar jornalistas era um modo de sufocar a sociedade. A censura nas redações, os cortes nos jornais, os bilhetes dos generais, os telefonemas intimidatórios eram parte do mesmo sistema de opressão. O que Miriam viveu então, grávida, jovem, algemada em um porão não é alegoria, é um dos capítulos mais sombrios da história brasileira.

Portanto, quando figuras públicas, com mandatos eletivos, zombam da memória das vítimas da ditadura, elas não estão apenas negando os fatos: estão trabalhando pela reconstrução simbólica do autoritarismo. É nisso que reside o perigo político. O negacionismo histórico, quando promovido por lideranças políticas, não é só discurso, é ação. Ele desumaniza as vítimas, reabilita os algozes, e testa os limites da democracia. Bolsonaro, ao rir da tortura de Miriam, não age como indivíduo apenas. Age como representante de um projeto político que flerta com o passado sombrio, que rejeita a verdade histórica, e que busca minar os pilares do Estado democrático de direito.

Diante disso, é preciso que, como categoria, nós jornalistas brasileiros nos posicionemos com firmeza. Miriam não está só. Seu corpo, sua história e sua coragem são testemunhos que pertencem a toda uma geração que lutou com a caneta na mão e o medo no estômago. Que isso fique claro: jornalistas não esquecerão. E não perdoarão qualquer tentativa de apagar ou reescrever a história com mentiras oficiais. A democracia começa pela liberdade de imprensa, e ela se protege com memória e indignação.

Por fim, é nosso dever dizer: que Miriam se sinta profundamente abraçada por todos nós. Não apenas como colegas de profissão, mas como cidadãos conscientes da gravidade do que ela viveu e do que representa esse riso debochado que hoje ecoa em tantos discursos. Que essa dor relatada em rede nacional seja lembrada como um “nunca mais” contundente, definitivo, inegociável. Torturar jornalistas é calar o país. E nós não permitiremos que o Brasil volte a esse lugar. Nós não permitiremos mais sermos torturados. Nunca mais!

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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