Se os Estados Unidos inspiram o erro, a crise climática não pode esperar

Os cortes no serviço meteorológico dos EUA e a tragédia no Texas acendem um alerta global, inclusive para o Brasil, que insiste em subestimar os sinais do colapso climático.

O colapso climático deixou de ser uma previsão futura para se tornar uma realidade letal. A tragédia que assola o Texas agora, com mais de cem mortos após enchentes repentinas não pode ser lida apenas como um desastre natural. Trata-se de uma catástrofe política. Pipocaram manchetes nos tabloides americanos nas últimas quatro horas e a imprensa americana aponta os profundos cortes no Serviço Nacional de Meteorologia (NWS), promovidos pela gestão Trump, como fator agravante para o número de vítimas. A desarticulação entre os avisos técnicos e a resposta emergencial local evidenciou que, diante da força da natureza, a omissão institucional cobra seu preço. E cobra em vidas.

Quando os Estados Unidos erram, o mundo inteiro precisa prestar atenção. Afinal, suas decisões ainda irradiam consequências e lógicas, sobretudo em países que historicamente importam modelos administrativos, inclusive os piores. A atual disputa política em Washington sobre o esvaziamento do NWS não é apenas um drama americano, é um espelho. Porque a falta de investimento em ciência, previsão e gestão climática tem sido recorrente também em outras democracias que adotam discursos negacionistas ou reduzem a política ambiental a uma pauta secundária.

No Brasil, a analogia é incômoda, mas necessária. Por aqui, o enfraquecimento de órgãos como o INMET e o desmonte progressivo de estruturas de monitoramento ambiental como o INPE seguem uma trilha semelhante. A ausência de pessoal qualificado, os cortes orçamentários e a descontinuidade de políticas públicas colocam em risco a capacidade de resposta do Estado diante de eventos extremos, que já são frequentes e violentos: de Petrópolis ao Rio Grande do Sul. A negligência com o clima não é apenas técnica: é moral. Em Petrópolis, entrevistei pelo Jornal O Globo um globo um senhor que perdeu a avô nas enchentes em 83, e em 2015 enterrava sua neta pela mesma catástrofe.

O caso texano revela mais do que falhas operacionais. Ele expõe o custo da ideologia que trata o Estado como obstáculo, mesmo em áreas onde sua atuação é inegociável. Um alerta mal emitido pode ser a diferença entre evacuar uma escola ou contar mortos. Por isso, o debate que hoje ocupa as manchetes nos EUA precisa atravessar fronteiras e reverberar onde ainda há tempo de evitar tragédias, ou de minimizá-las com estrutura, ciência e responsabilidade.

Em vez de observar os erros dos EUA como exceção, deveríamos reconhecê-los como antecipações do que nos aguarda, caso não mudemos de rota. A catástrofe climática é global, mas sua gestão é local. E se insistirmos na miopia política, estaremos apenas adiando, por pouco tempo, a mesma manchete: “Mortes evitáveis, por omissão previsível.”

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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