Vereadora quer censurar Jorge Amado porque não leu nem o próprio país

Ao propor banir “Capitães da Areia” das escolas, parlamentar do PL exibe ignorância histórica e usa a cultura como guerra ideológica cansativa e estéril

Viralizou nas redes e nos portais de notícias a fala desastrosa de uma vereadora do PL, Jéssica Lomoine, que, em mais uma cruzada ideológica sem pé nem cabeça, propõe a exclusão do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado, do currículo escolar. O argumento? Trata-se, segundo ela, de uma obra “comunista”, escrita por um autor “militante de esquerda” que, veja só, ousou retratar a realidade social brasileira. A fala beira o cômico, mas é trágica em sua essência: revela o despreparo de quem legisla sem conhecimento histórico, sem leitura, e sem qualquer compromisso com a educação pública de qualidade.

É preciso dizer com todas as letras: Capitães da Areia é um dos romances mais importantes da literatura brasileira, um retrato sensível e profundo da infância abandonada, da desigualdade urbana, da exclusão social. Foi esse livro, ainda nos meus tempos de escola, que me ensinou a olhar para as crianças e adolescentes em situação de rua com humanidade, não como ameaça, mas como vítimas de um país que sempre preferiu reprimir antes de acolher. Jorge Amado não romantiza a miséria, ele denuncia o abandono: e é justamente por isso que o livro incomoda quem lucra com a ignorância a exclusão social.

A vereadora que ataca Jorge Amado, na verdade, não está atacando um livro. Está atacando a possibilidade de os jovens brasileiros desenvolverem pensamento crítico. Sua intenção não é proteger os estudantes, mas manter a cultura refém de sua visão estreita de mundo. Ao invés de apresentar propostas reais para enfrentar problemas como fome, evasão escolar ou violência urbana, ela investe contra o que a juventude pode ganhar com a leitura de uma obra clássica. É mais fácil criar um espantalho ideológico do que enfrentar a complexidade da vida real.

Essa tentativa de censura disfarçada é ainda mais grave por atingir justamente uma obra que humaniza os invisíveis. Capitães da Areia dá nome, rosto e voz aos que a elite política brasileira historicamente preferiu ignorar. O problema, para essa vereadora e para tantos outros que embarcam nessa onda de cruzadas morais, não é o conteúdo “ideológico” do livro: é o fato de que ele obriga o leitor a enxergar o outro. E essa gente só quer ser enxergada. E num país tão marcado pelo abandono, pela desigualdade e pelo preconceito, isso é revolucionário. Não por ideologia, mas por empatia.

O Brasil não pode ser governado por quem confunde livro com doutrinação, nem por quem vê inimigo em cada página escrita com coragem. A vereadora em questão não apresentou nenhum projeto sério em favor da educação: só histeria ideológica e desejo de aparecer. É por isso que sua fala precisa ser combatida com a força da história, da literatura e do pensamento. E se ela não conhece Jorge Amado, tampouco conhece o Brasil. Está na hora de parar de usar o cargo para promover ignorância. Contra esse tipo de política, o que a gente precisa mesmo é mais leitura, menos microfone, e mais inteligência por parte do eleitor.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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