Feminicídio ganha aposentadoria premiada integral

Simplesmente o Estado transformou a suspeita de feminicídio em um grande privilégio institucional: antecipação da aposentadoria com baixa idade e teto de pagamento de quase R$ 30 mil.

É profundamente obsceno quando a máquina pública, com sua sinfonia burocrática impecável, se move com eficiência não para proteger a vida, mas para garantir conforto à sombra da morte. A aposentadoria integral concedida ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto não é apenas um ato administrativo: é uma mensagem. E ela é clara: dentro de certas estruturas, o pertencimento pesa mais que a gravidade do crime. Enquanto a soldado Gisele Alves Santana tem sua existência reduzida a um inquérito e à dor da família, o acusado é suavemente conduzido à estabilidade financeira. Não há aqui neutralidade técnica; há escolha.

O gesto institucional revela um pacto silencioso, quase tribal, onde a farda funciona como escudo. Não se trata apenas de proteger um indivíduo, mas de preservar uma imagem, ainda que isso custe a erosão da confiança pública. A tentativa de simular suicídio, atribuída ao réu, não é apenas um detalhe macabro do caso; ela ecoa, em escala individual, a mesma lógica de encobrimento que agora se repete no plano institucional. A realidade é moldada, ajustada, reescrita, como se a verdade fosse um inconveniente administrável.

Há também uma pedagogia perversa em curso. Ao assegurar quase R$ 29 mil mensais a um homem preso sob acusação de matar a própria esposa, o Estado ensina, ainda que não declare, que a violência pode coexistir com a recompensa, desde que mediada pelo lugar certo na hierarquia. O efeito disso é devastador: não apenas para mulheres que enxergam nesse episódio mais um sinal de desamparo, mas para toda a sociedade, que aprende que justiça e privilégio caminham em trilhas paralelas e raramente se cruzam.

E, no fundo, o que mais me inquieta não é a exceção, mas a possibilidade de regra. Porque essa decisão não nasce no vazio; ela é fruto de uma cultura que naturaliza a blindagem de seus agentes, mesmo quando estes se tornam aquilo que deveriam combater. A revolta da família de Gisele não é apenas legítima, é o último resquício de lucidez diante de um sistema que, ao invés de interromper o ciclo da violência, parece recompensá-lo com estabilidade, silêncio, dinheiro e férias vitalícia.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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