A brutalidade digital contra o luto de uma mãe que acaba de enterrar dois filhos

Expor imagens íntimas de uma suposta traição, no mesmo horário em que essa mãe enterra os únicos dois filhos não é informação: é pedir que essa mãe se mate. É chocante!

O episódio que domina o noticiário já é, por si só, de uma brutalidade difícil de assimilar: uma tragédia familiar que terminou em mortes e em um luto devastador. Diante de um acontecimento dessa natureza, qualquer sociedade minimamente civilizada deveria recuar, silenciar, permitir que a dor cumpra seu tempo. No entanto, algumas páginas do Instagram decidiram seguir na direção oposta, publicando imagens da vida íntima da mulher envolvida exatamente no momento em que ela sepulta os próprios filhos. É impossível não perguntar: o que se pretende com isso?

Não se trata de liberdade de imprensa, nem de interesse público. A academia, a ética jornalística são claras ao distinguir informação de exposição cruel. A divulgação de conteúdos que humilham ou esmagam emocionalmente alguém em situação extrema de luto não esclarece a sociedade; apenas alimenta o voyeurismo coletivo. A própria Organização Mundial da Saúde recomenda que casos de morte violenta e suicídio sejam tratados com responsabilidade e cautela justamente para evitar a amplificação do sofrimento e o efeito de contágio emocional. Ignorar esse consenso não é ousadia, é negligência. É literalmente chocante!

Há também uma perversidade moral difícil de ignorar. Ao publicar imagens íntimas nesse contexto, essas páginas parecem insinuar que a dor não basta, que o sofrimento ainda precisa ser exibido, comentado, julgado. Como se a punição social devesse continuar mesmo quando a tragédia já atingiu o limite do irreparável. Que resposta se espera dessa mulher? Que desfecho se deseja provocar? A pergunta é dura, mas necessária.

É hora de um debate sério, firme e intransigente sobre os limites éticos da comunicação em tempos de algoritmos e cliques. Não se trata de censura, mas de responsabilidade. Uma sociedade que transforma a desgraça humana em espetáculo não apenas perde a empatia, perde também a noção de humanidade. E quando a humanidade se perde, não há curtida que a recupere.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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