Se o Judiciário julga a si mesmo, ele acaba revelando o inconsciente do poder
As denúncias envolvendo integrantes de altas cortes, como o Superior Tribunal de Justiça, não são apenas crises jurídicas, são cenas de um drama psíquico coletivo. A psicanálise ensina que instituições também têm mecanismos de defesa: negam, minimizam, racionalizam. Quando o sistema que deveria punir se vê acusado, ele tende a agir como o sujeito que protege a própria imagem idealizada, evitando encarar a própria falha.
O Judiciário ocupa o lugar do “pai simbólico” da ordem social, aquele que impõe limites e garante regras. Quando esse “pai” é acusado de violar normas éticas, ocorre uma ruptura de autoridade. Não é apenas um escândalo: é um abalo na estrutura simbólica que sustenta a crença na justiça. A sociedade reage com descrença, ironia e cinismo porque a figura que deveria conter o caos passa a representar o próprio descontrole.
A forma como esses casos são conduzidos revela algo crucial: a tendência corporativa de autopreservação. Tal qual uma família que esconde seus segredos das crianças para manter a aparência de harmonia, instituições tendem a proteger seus membros para preservar o mito de integridade. O problema é que o recalque institucional sempre retorna, e retorna como escândalo público em forma de sintoma.
A crítica, então, não é só moral, é estrutural: enquanto o sistema julgar a si próprio sem transparência radical, continuará preso a um narcisismo institucional. E o narcisismo, como na clínica, impede o sujeito ou a instituição de se transformar.
