Orgulho, necessidade de validação e aprovação, e  o equívoco da família de Túlio sobre o papel da universidade pública

Orgulho, necessidade de validação e aprovação, e o equívoco da família de Túlio sobre o papel da universidade pública

A necessidade de reconhecimento falou mais alto que a compreensão do que se critica. O que fica é a chacota e a ignorância passada de pais para filhos

O vídeo constrangedor em que Túlio Maravilha aparece ao lado da esposa e da filha para anunciar que a jovem passou em duas universidades federais, mas não irá cursá-las, revela muito mais do que uma simples escolha educacional. Ao justificar a decisão dizendo que as federais estariam precárias e que as instituições particulares se alinham melhor aos valores da família, ele acaba expondo uma compreensão limitada sobre a própria natureza da universidade pública. Faculdades federais não existem para refletir valores familiares específicos, mas para produzir conhecimento, formar profissionais e, sobretudo, garantir acesso ao ensino superior para quem não teria condições de pagar por ele.

Há também um ‘mico’ ainda maior na forma como a situação foi apresentada publicamente. Tornar pública a aprovação, enfatizando a conquista ao mesmo tempo em que se recusa o caminho conquistado, sugere um gesto que parece menos voltado à educação e mais à necessidade de reconhecimento, aprovação e validação social, tudo baseado no orgulho. Quando o mérito é exibido dessa forma, o que se busca não é apenas comunicar uma decisão, mas reafirmar uma imagem, a de sucesso, de distinção, de superioridade de escolha. Esse movimento costuma nascer de um mecanismo muito humano: o narcisismo, o orgulho que precisa ser visto, confirmado e aplaudido para se sustentar.

Outro ponto importante é o equívoco conceitual presente no argumento dos “valores”. A universidade pública não foi criada para preservar visões particulares de mundo, mas para promover o encontro entre diferentes perspectivas, pesquisas e áreas do saber. É justamente essa diversidade que constitui sua riqueza. Esperar que uma instituição de ensino superior funcione como extensão dos princípios privados de uma família é, em certa medida, não compreender a função pública do conhecimento, que é crítica, plural e, muitas vezes, desconfortável.

A fala dessa família não versa sobre educação, mas sobre identidade e afirmação. A aprovação nas federais, transformada em vitrine, parece ter servido mais como instrumento de validação social do que como etapa de um projeto acadêmico. Não vale para cursar, mas vale para estampar a aprovação. E quando o orgulho ocupa o centro da narrativa, o debate sobre ensino, acesso e responsabilidade pública acaba ficando em segundo plano: empobrecido, reduzido e, sobretudo, distorcido. Além disso, é um tapa na cara daqueles que não podem pagar para escolher suas oportunidades. Que vergonha! Que mico!

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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