Você pode não acreditar, pode não parecer, mas o ser humano está evoluindo

Entre ruídos, conflitos e a sensação permanente de crise, a humanidade avança, ainda que de forma imperfeita e turbulenta

Há uma tendência humana de confundir visibilidade com decadência. Quanto mais enxergamos problemas, mais acreditamos que eles estão crescendo, quando muitas vezes o que cresce é a capacidade de percebê-los. Dormi debruçado numa busca, preocupado com a resposta. Tudo começou quando, no elevador, escutei alguém na portaria dizer: “estamos andando para trás”. Graças ao bom Deus, para quem é Deus, encontrei evidências consistentes de que, no longo prazo, a humanidade ampliou direitos, reduziu diversas formas de violência, aumentou a expectativa de vida, expandiu o acesso à educação e fortaleceu mecanismos de participação pública. A própria ideia de dignidade humana, hoje tão difundida, era impensável para a maior parte das sociedades.

A política, em especial, produz a ilusão de regressão. A brasileira então… O debate público parece mais áspero, mais ruidoso, mais radicalizado. No entanto, entendi ser preciso uma leitura menos apressada: o que está em curso, em muitos países, é a ampliação do número de vozes. Quando mais pessoas entram no espaço público, o nível médio de sofisticação do discurso naturalmente se diversifica. Surgem vozes lúcidas e vozes confusas, análises rigorosas e opiniões passionais. Isso não significa decadência; significa abertura. Durante muito tempo, a política foi um território restrito a elites econômicas, acadêmicas ou partidárias. Hoje, ela é disputada também por cidadãos comuns, e a democracia, por definição, é dar voz a todos.

No Brasil, essa sensação de turbulência é particularmente intensa. Vivemos uma fase em que conflitos ideológicos, identitários e institucionais parecem permanentes. Mas a história política ensina que períodos de expansão da participação costumam ser seguidos por fases de conflito mesmo. A sociedade aprende, cria limites, refina regras, amadurece o debate. O extremismo que surge em momentos de transição raramente se sustenta indefinidamente, porque a própria convivência social impõe freios. A democracia é, antes de tudo, um processo de aprendizagem coletiva: lento, imperfeito, mas persistente.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja imaginar que evolução significa serenidade. Não significa. Evoluir é também atravessar conflitos, suportar tensões, ajustar estruturas que já não comportam a complexidade do presente. O mundo de hoje parece mais caótico não porque regredimos, mas porque somos mais numerosos, mais conectados, mais conscientes e mais participativos do que qualquer geração anterior. E, paradoxalmente, é exatamente esse barulho, essa multiplicidade de vozes, que revela que a humanidade, apesar de tudo, continua avançando.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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