O tempo que não volta…

E o peso silencioso da responsabilidade

Havia um local onde foram confiadas as chaves do celeiro e o calendário das colheitas. Não lhe pediram milagres, apenas constância: abrir o celeiro no tempo certo e permitir que cada um voltasse à sua casa quando o sol baixasse. Mas havia o senhor do tempo. O “amanhã”.

Alguns vinham de longe. Alguns atravessavam desertos de saudade, outros deixavam rios e cachoeiras para trás. Era a espera do ano e o descanso depois da estação. Porém, quando chegou o tempo da festa, não houve mesa posta. O pão não veio, o descanso foi suspenso, e o que era para ser celebração tornou-se vigília. Não por falta de trigo, mas por ausência de cuidado.

Via a vida dos outros passando a sua frente com pequenos pecados, quase invisíveis. Esquecia que a sua falta se condicionava a ausência de muitos. A ausência pesada de quem não tomou a estrada marcada, só olhou as malas prontas. O tempo, quando mal administrado, não apenas fere: ele rouba encontros que não voltam, rios que deixam de ser atravessados, abraços que ficam para depois na conta da sorte.

Há responsabilidades que não aparecem nos livros, mas gritam na vida, como apagar a lâmpada quando ainda há gente no caminho. Não é preciso gritar, nem humilhar, nem negar: basta o silêncio. E a espera contínua, às vezes ensina uma lição dura: a de que o esforço do outro pode não ter nada a ver com sua colheita.

Durante a espera não houve castigo divino, apenas consciência. Ela não vinha do céu, mas do espelho. O reflexo que via não era de quem guardava as chaves, mas o de quem entende a responsabilidade de que cada chave abre uma vida. E que responsabilidade não é dar tempo ao tempo, mas saber que, ao não cumprir o tempo do outro, condena-se a si mesmo.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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