Homofobia em campo: a camisa rosa que revelou a mente cinza e podre de Abel

Por que a fala de Abel Braga expõe um problema estrutural que o futebol brasileiro insiste em varrer para debaixo do gramado

A fala de Abel Braga sobre “camisa rosa” e “time de veado” não é um deslize isolado nem uma piada infeliz arrancada de um contexto descontraído. Trata-se de uma manifestação que viola princípios básicos previstos no ordenamento jurídico brasileiro, sobretudo o respeito à dignidade da pessoa humana, fundamento da Constituição Federal. Discursos homofóbicos cristalinos e sólidos que reforçam violência e preconceito, especialmente quando proferidos por uma figura de autoridade. É o show de discriminação simbólica irresponsável no esporte que reforça ambientes hostis. O técnico não apenas reproduziu um preconceito estrutural: ele o legitimou a partir da hierarquia que ocupa.

A frase de Abel revela algo que vai além da superfície do humor bruto típico do futebol. A associação entre rosa e fragilidade, e entre masculinidade e “força”. O retrato claro da masculinidade imbecil defensiva, que precisa reafirmar sua superioridade sempre que confrontada por símbolos culturalmente associados ao feminino. O riso de vestiário, tão celebrado como espontâneo, muitas vezes funciona como um mecanismo de defesa: ele protege o sujeito do desconforto de encarar suas próprias fragilidades psíquicas. Nesse sentido, a fala de ‘machão’ de Abel não revela força de um leão, mas a insegurança e medo de uma gazela encurralada.

A fala é algo ultrapassado dentro do futebol brasileiro: um espaço onde a heteronormatividade compulsória é regra e qualquer desvio é punido com ridicularização. A cor rosa, no discurso de Abel, não é apenas uma cor: é um marcador simbólico do que o futebol não admite, ainda que finja modernização através de campanhas de marketing. Enquanto clubes levantam bandeiras em datas simbólicas, como o Outubro Rosa, o cotidiano do esporte segue marcado por discursos que reforçam a exclusão. A fala de Abel apenas verbaliza, com franqueza cruel, o que muitos ainda reproduzem silenciosamente.

O pedido de desculpas não apaga o fato de que o dano já estava feito e, pior, compreendido como normal por parte do público. Quando Abel afirma querer “caras fortes”, reforça a cartilha da masculinidade tóxica que confunde afeto com fraqueza e confina homens numa jaula emocional. De um técnico experiente, cuja liderança molda não apenas táticas, mas subjetividades, espera-se responsabilidade discursiva. Ele falhou de forma grave. Sua fala alimenta a lógica que impede jogadores LGBTQIA+ de existir publicamente no esporte mais popular do país. O futebol brasileiro precisa urgentemente entender que o problema não está no rosa. O problema está no cinza opaco de quem, mesmo em 2025, insiste em confundir preconceito com descontração. E isso, definitivamente, não tem graça.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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