Na COP30, o mundo celebra discursos enquanto posterga decisões. E o clima, paciente até demais, continua derretendo.
Belém ganhou o centro do mundo ao sediar a COP30, mas o brilho do encontro não esconde o desconforto crescente: as conferências climáticas tornaram-se vitrines de promessas que raramente se cumprem. Os líderes discursam sobre metas ambiciosas, transição energética e justiça climática, mas o planeta segue queimando enquanto essas promessas evaporam. Há um abismo entre falar e agir, e nele cabem oceanos inteiros de contradições. A COP virou, em muitos momentos, um ritual político: importante, simbólico, mas insuficiente.
Países ricos cobram empenho dos emergentes, enquanto mantêm seus próprios subsídios fósseis escondidos sob tapetes diplomáticos. Nações petroleiras exigem tempo, recursos e compreensão. Países amazônicos pedem financiamento para proteger aquilo que o mundo diz querer preservar. O caos climático virou moeda de negociação, e cada um joga com as cartas que tem. O planeta é o tabuleiro, mas os interesses nacionais determinam as jogadas.
A psique coletiva da COP também é reveladora. Há um desejo de acreditar que as reuniões anuais ainda podem salvar o mundo, mesmo que ano após ano elas produzam compromissos frágeis. É como se a humanidade estivesse presa a um ciclo de esperança performática: promete, celebra, recua, repete. É um mecanismo de defesa negar a urgência para suportar a ansiedade existencial que a crise climática provoca. A diplomacia vira terapia em escala global, mas sem insight verdadeiro.
Enquanto isso, a ciência segue gritando. Temperaturas recordes, eventos extremos, desaparecimento de espécies, migrações forçadas, nada disso espera decretos ou consensos. A natureza já não opera na mesma escala temporal da política. E cada COP que falha em avançar de forma concreta é uma carta de desistência assinada em silêncio. O planeta está mudando de forma irreversível, e as mesas de negociação parecem incapazes de acompanhar essa velocidade.
No fim, a COP30 deixa no ar a sensação de que estamos sempre prestes a fazer algo histórico, mas nunca fazemos. É como viver à beira do futuro, sem coragem de atravessar a linha. A conferência termina, os líderes voltam para casa, os discursos se dissolvem e nós ficamos aqui, esperando que a próxima COP venha acompanhada não de palavras mais bonitas, mas de ações que finalmente mereçam ser chamadas de compromisso.
