A liquidação do Banco Master expõe o teatro de transparência do sistema financeiro brasileiro e a crônica incapacidade de o país lidar com seus próprios fantasmas de colarinho branco
A liquidação do Banco Master chega como um terremoto anunciado, desses que todos sentiram antes do tremor oficial. O sistema financeiro brasileiro, sempre orgulhoso de seu rigor e suas camadas de controle, agora se vê desnudado diante de um esquema que, segundo as investigações, movia bilhões na penumbra. Não se trata apenas de um banco que quebrou; trata-se de um modelo que finge não ver o que acontece debaixo de seu próprio balcão. A prisão de Daniel Vorcaro é o clímax de uma história cujos sinais estavam estampados em relatórios, auditorias internas e rumores de mercado há anos.
O caso revela que a regulação no país é mais estética do que efetiva. As instituições responsáveis por fiscalizar, quando não paralisadas por burocracia, são vítimas de uma fé quase religiosa nas narrativas dos próprios fiscalizados. A farsa se completa quando, depois do escândalo, surgem discursos altivos de “reforço da supervisão” que, no fim, apenas repetem velhos mantras. A liquidação do Master é uma cicatriz anunciada, mas a cicatriz não veio antes do ferimento; veio depois, quando já não havia como esconder o corte.
O impacto dessa implosão se espalha pelo mercado como um vírus silencioso. Investidores se veem órfãos, fundos sob risco, e pequenas empresas descobrem que confiaram em um gigante de barro. O custo real recai sobre quem acreditou na solidez de um sistema que, no fundo, prefere proteger reputações do que a própria integridade. O país precisa admitir que não é o colapso de um banco que assusta, mas o fato de que tantos outros poderiam seguir o mesmo caminho se a cortina fosse puxada.
Há também uma obsessão aqui: a compulsão brasileira por repetir seus traumas financeiros. De tempos em tempos, uma crise explode para lembrar que nunca elaboramos o luto da irresponsabilidade sistêmica. Somos uma nação que convive com desvios gigantescos como se fossem tempestades naturais e inevitáveis, incontroláveis, aceitáveis. Essa postura alimenta a fantasia de que o desastre é parte do ciclo econômico, quando na verdade é parte de um padrão.
No fim, a liquidação do Banco Master não deveria ser tratada como um acidente, mas como uma confissão. Uma confissão de que o sistema financeiro brasileiro preferiu, durante anos, a versão gentil da história em vez da verdade. Agora, com os destroços expostos, o país precisa olhar para essa ruína e decidir se seguirá fingindo que não viu, ou se finalmente terá coragem de descer ao porão onde guarda seus escândalos preferidos.
