Se a infância é na ‘bolha de princesa’, o coração insiste no erro até a vida ensinar pela dor

Entre o instinto e o aviso, há quem precise, pela falta de maturidade e experiência, tropeçar mais de uma vez na mesma pedra para compreender o que o mundo inteiro já sabe e avisa.

Há pessoas que só aprendem na dor. Não por falta de aviso, nem por carência de amor: mas por uma crença obsessiva pela fama, que faz a gente achar que nosso coração, e uma ‘maturidade’ inexistente, sabe mais que a razão coletiva. São aquelas que, mesmo diante do óbvio, insistem em desafiar o senso comum, apostando que, desta vez, tudo será diferente. Como se a história, aquela mesma que já se repetiu cinco vezes, pudesse, por milagre, mudar o final apenas pela força da esperança que fabricamos para nós mesmos.

A Psicanálise chama isso de “viés da resistência”: o impulso de contrariar o consenso, mesmo quando o consenso se apoia em fatos, em provas, em histórico. É o desejo de ser exceção à regra, de acreditar que erros anteriores foram apenas um mal-entendido do destino. Mas, quando todo o entorno diz “cuidado”, e só uma voz insiste em “dessa vez vai ser diferente”, o perigo é evidente: a solidão de quem se agarra ao próprio abismo.

Do ponto de vista da mulher, o dilema é ainda mais cruel. Porque a sociedade, ao mesmo tempo que cobra lucidez, romantiza a teimosia amorosa. Ensina desde cedo que o amor cura, redime, transforma, e assim, muitas acabam confundindo afeto com missão. Acreditam que salvar alguém é uma forma de se salvar também. Só que, no fim, o que se renova não é o amor, é o ciclo da dor. O fundo do poço. Às vezes, basta passar pouco tempo ao lado de alguém e ‘tchum’: em poucos meses você já está dentro do poço que tanto falaram sem nem perceber. Ai vem a negação.

A verdade é que, quando todos dizem a mesma coisa, raramente estão errados. A maioria não fala por maldade, mas por memória, cuidado e proteção. Falam porque já viram, já viveram, já entenderam. E quando alguém ignora o coro uníssono da razão para seguir sozinha rumo ao caos, a tragédia se torna inevitável; não por azar, mas por escolha. Quando a pessoa cresce vivendo num conto de fadas, distante da realidade, que é muito dura e não manda avisos quando chega… É só aí que a pessoa vai entendendo, com o tempo, que há dores que só cessam quando deixam de ser lição e passam a ser limite e ponto final. Do outro lado, fica apenas aquele lamento: ‘falta de aviso não foi’.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

LEIA MAIS

A farsa da guerra: o fracasso político por trás da chacina no Rio

‘Maria, cheia de graça’: o erro grosseiro do Papa ao falar da mãe de Jesus

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *